Depois que todos se foram, João resolveu tomar mais uma cerveja e pensar numa maneira eficaz das pessoas lerem o que escreve. Obviamente, essa ação foi sem sucesso. A única alternativa que ele enxergou foi a de ir para casa e dormir abraçado com a pequena glória há pouco conquistada.
João andava vagarosamente e pensava em tudo ao mesmo tempo em que não pensava
Enquanto as pernas de João o guiavam e sua cabeça não conseguia parar em nenhuma idéia que atraísse sua atenção, uma moça dobrou a esquina da quadra à frente e começou a andar no mesmo lado da rua que ele.
Ela olhou para trás e, enxergando João, pôs-se a andar mais depressa. Naquela hora da madrugada, era impossível pensar boa coisa dos que andam pela rua. Sentiu um leve friozinho na barriga e procurou imaginar coisas que a acalmasse, já que em breve chegaria à sua casa.
João não notou a mulher, como também não percebeu nada a sua volta, pois se concentrava em achar algo para pensar.
Quando estava quase por desistir de fazer funcionar seu cérebro por aquele dia, eureca! Sintonizou dois canais que o agradava.
Agora João relembrava no prazer do reconhecimento há pouco conquistado e, também, na brincadeira acontecida naquela noite sobre o assassino que deixa cordas de violino no púbis de suas vítimas.
Enquanto João caminhava, ora pensava numa coisa, ora maquinava a outra...
As duas divagações começaram pequenas, mas foram crescendo. A concentração de João estava tão voltada em desenvolver as idéias, que começou a ficar mais desatento ao que acontecia ao redor.
Ao passo que seus neurônios trabalhavam a todo vapor, seu corpo começou a ficar mais agitado e, conseqüentemente, seu passo foi se apressando mais e mais.
A moça notou que o homem que andava na mesma calçada que ela acentuou seu andar e logo uma série de aflições tomaram conta dela. Como contra-resposta à ação de João, a mulher acelerou mais ainda as suas pernas e começou a fazer orações.
A mente de João trabalhava muito rápido! O rapaz começou a pular de um canal para o outro de modo tão veloz que, em certo momento, fundiu os dois e criou um terceiro. Como resultado dessa fusão, ele formulou esta idéia: qual seria o pensamento das pessoas se o assassino tivesse colocado poesias sobre o corpo das jovens?
Neste exato momento João não era capaz de enxergar mais nada! Todos os seus sentidos estavam voltados para o novo pensamento que havia acabado de conceber e, em resposta à agilidade da mente, suas pernas pareciam querer voar.
A aflição da moça cresceu de maneira proporcional ao som que os sapatos de João faziam ao ganhar velocidade. Ela notou que estava quase para perder o controle sobre si e procurou tomar providências.
Aceitou o fato de que o homem andava muito mais de pressa que ela e que, se nada fizesse, em pouco segundos ele a alcançaria. Com base nisso, adotou a seguinte medida: correr e, quando tomasse uma boa distância, gritar por socorro.
“Maldito sapato!” Foi esse seu pensamento quando o salto do seu calçado quebrou no momento em que principiava a corrida. A moça foi ao chão – supressa por demais com as peripécias da Fortuna para conseguir gritar. Foi capaz apenas de libertar as lágrimas para um breve passeio sobre seu rosto.
João, que nada via ou ouvia, estava em uma espécie de transe mental quando atropelou algo que estava no chão e caiu.