segunda-feira, 9 de julho de 2007

Capítulo 10: A volta


Era a segunda corrida de João naquele dia. A primeira foi para chegar à delegacia, a outra para fugir de lá. Ele voltava para sua casa agora. Havia corrido metade do trajeto e, sem fôlego, fazia o restante andando.

O rapaz estava muito confuso com o que lhe vinha acontecendo. Deveria ir para o trabalho, mas não estava com cabeça para isso. Queria chegar em casa o mais rápido possível para pensar um pouco. Depois ligo para meu patrão e digo que estava doente, ele vai entender.

Procurava não pensar em nada na rua, queria deixar isso para depois, entretanto era impossível. Impossível porque o ocorrido na noite anterior já havia chegado à boca do povo. De quando em quando passava por pessoas que tinham a morte da moça e o belo poema como assunto. As opiniões sobre o acontecido eram diversas, contudo uma única coisa se repetia no discurso de todos: “Posso até não saber o porquê e quem matou, mas, quem quer que seja que fez aquela poesia, fez a coisa direito!”.

Tudo o que João ouvia deixava-o mais e mais confuso. Gostava de escutar os elogios, afinal de contas, aquelas coisas saíram das mãos dele, entretanto arrepiava-se ao pensar que estava ganhando créditos à custa de uma morte. Era um querer e não querer.

Depois de muito andar, chegou ao seu destino. Pegou o molho de chaves no bolso e começou a procurar a correta para abrir a porta de vidro que divisava a calçada do hall de entrada do prédio.

Enquanto estava distraído na procura, uma pessoa aproximou-se silenciosamente e o assustou ao dizer:

– Ora, ora! Veja se não é o Poeta das Madrugadas! Achei que voltaria para casa mais rápido.

João deu um pulo, mas, ao reconhecer aquela voz sarcástica, sussurrou o seguinte, enquanto segurava no braço do mendigo:

– Quieto! Você quer que alguém escute?! E eu havia me esquecido de você... Vamos, diga logo, quanto de dinheiro quer para não dizer o que fiz ontem?

– Então – disse o Lovateri ignorando a última pergunta de João – como foi lá na delegacia? Contou para os tiras o que você fez? Deu muitos autógrafos?

– Escuta aqui, seu desgraçado, eu não falei nada para ninguém e pretendo não falar. Diz logo o quanto você quer e vá embora.

– Eu não quero nada, cacete! Será que não deu para você entender que eu não quero porra de dinheiro algum?

– Então o que veio fazer aqui?

– Vim te ajudar – disse o filósofo em um tom amável.

– Quê?!

– Bem, hoje, quando você saiu de casa, notei, pelo seu modo de agir, que você tem uma visão um tanto quanto católica sobre o que aconteceu ontem. Ou seja, você fez um desabafo artístico com aquela poesia, mas se arrependeu depois. Era perfeitamente visível que sua consciência iria sugerir algo politicamente correto como, por exemplo, se entregar. Mas o problema é que você anda como um frouxo, age como um frouxo, tem uma visão de frouxo e pensa como um frouxo, em outras palavras, você é um frouxo. Com base nisso, concluí que você entraria naquela delegacia e que com certeza não teria coragem de levar a história de se entregar a diante e acabaria voltando para casa.

– Olha aqui seu...

– Eu ainda não terminei de falar – interrompeu o filósofo – Eu ainda tinha uma dúvida quando ao assunto. Precisava saber se você havia feito aquela poesia por livre e espontânea vontade. Como eu não estava muito a fim de trabalhar hoje e sabia que você demoraria algum tempo para voltar para casa, decidi entrar no seu apartamento para olhar suas outras poesias.

– Você invadiu meu apartamento?!

– Como eu ia dizendo, decidi entrar no seu apartamento para olhar suas poesias; e, diga-se de passagem, não foi muito difícil, pois você deixou a porta aberta. Deveria tomar mais cuidado, rapaz. Essa cidade é perigosa e alguma pessoa má intencionada poderia ter roubado, por exemplo, o seu talão de cheque que estava sobre a mesa... Eu não nego que abri o talão para descobrir seu nome, uma vez que você não se apresentou até agora, senhor João Tântalo.

– Devolva minhas coisas agora – falou João, enquanto segurava o colarinho de Lovateri – ou senão eu...

– Calma, calma, rapaz! – defendeu-se o filósofo enquanto tentava se separar de João – Eu não roubei nada. Já disse que fui para lá a procura de outra coisa, que, por sinal me fez tirar interessantes conclusões.

– Que conclusões?! – resmungou João chacoalhando o mendigo

– Quer ouvi-las? – divertiu-se o outro, enquanto ainda lutava para escapar.

– Fala logo!

– Então me larga.

– Pronto! – disse João largando o homem – Agora fala. Que conclusões?

– Ah, assim está melhor... Você tem uma mão pesada. Me machucou, sabia? – resmungou enquanto passava a mão no pescoço – não acha que seria de bom tom pedir desculpas?

– Olha aqui seu... – disse João avançando novamente.

– Brincadeirinha, brincadeirinha – divertiu-se Lovateri, para em seguida mudar de expressão e tom de voz – Bom, vamos falar de coisas sérias. Pelas poesias que encontrei no seu apartamento, concluí que você é um poeta... digamos... razoável. Confesso que me decepcionei um pouco, mas, refletindo melhor sobre o assunto, percebi que o que aconteceu ontem foi uma canalização de sentimentos e sensações em um único poema. Em outras palavras, é como se você tivesse juntado todos os sentimentos que distribuiu em vários poemas e concentrasse tudo em um só, um único.

– Aonde você quer chegar com isso?

– Aonde quero chegar? Vou ser mais claro: ontem você fez uma coisa excepcional, inimitável, inigualável que nunca mais vai se repetir, pois você não vai conseguir realizar obra alguma para ombreá-la. E é por isso que estou aqui agora. Vim te dizer que você não é um criminoso e que aquela morte não se passou de uma loucura que nunca mais vai acontecer. Você pode tratar de esquecer o seu feito maravilhoso e seguir sua vida como poeta razoável que é isso o que você é.

Dito isso, o filósofo ficou parado olhando a expressão facial atônita que João fazia ao ouvir as últimas palavras.

– Bom, foi um prazer conhecê-lo, senhor João Tântalo. Agora que sei que o senhor é um poeta razoável e que nunca mais vai fazer aquilo novamente, não tenho mais o que te falar e preciso cuidar da minha vida. Até um dia qualquer.

João não respondeu, ainda estava tentando processar as informações recentes. O filósofo, que esperava uma revolta por parte dele, como um soco, por exemplo, cansou-se do silêncio e do fato de João nem se mexer. Deu de ombros, virou de costas e foi-se embora.

domingo, 1 de julho de 2007

Capítulo 9: Fluxo de Consciência I

Deus do céu, eu devo estar ficando louco! só pode ser... ótimo, já corri bastante, esse mendigo não está me seguindo mais... será que o mendigo existe, ou será que é fruto da minha imaginação? talvez seja, talvez não... é mais sim do que não, afinal de contas, se existe mendigo filósofo que entende de artes e é um dicionário de citações ambulantes, o mundo deve estar para acabar, não, ele definitivamente não existe... que cansaço, vou parar de correr... pronto, em frente à delegacia, agora é só entrar, contar a verdade e me entregar... mas qual é a verdade? será que escrevi mesmo aqueles versos? se eu tiver escrito, então também vou ter que considerar a hipótese do mendigo existir... ah, para com isso, João! mendigo filósofo não existe nem aqui nem na China, porra! o quê que faço? será que me entrego? “Deseja algo, senhor?” puta que pariu, que merda! entrei na desgraça da delegacia sem perceber enquanto pensava... o que eu respondo? pense, João! “O senhor está bem, aconteceu algo senhor?” responda algo, mula! anda, anda! “Venha cá, senhor, sente-se naquele sofá ali, vou buscar uma água para você, o senhor não parece estar bem” o policial levantou, vai buscar água para mim e eu aqui, em pé, parado com essa cara de bobo, já sei! assim que ele voltar vou descarregar toda a verdade!... lá vem ele, lá vem ele! é agora! “Ek...u.... pm...akt...ek...” “Homem, não lhe entendo! vá com calma, tome essa água e respire fundo, depois tente falar” Falar o que filho da puta, eu não consigo falar, não está vendo! “Ek...u.... pm...akt...ek...” Não consigo, porra! o que está acontecendo comigo?! “Você não quer se sentar mesmo? Pelo menos beba a água... PORRA! Tu me molhou, rapaz! ... Vou chamar o Vitão, ele entende louco, espere aqui!” mas que maldição! eu quero falar, mas não consigo... será que aquele mendigo estava certo quando disse que tudo pode ser insensatez de breves minutos e coisa e tal?.... pronto! lá vai eu de novo pensar que aquele homem existe... mas, mesmo se ele não existir, pode ser minha consciência que está querendo dizer que foi um surto que não vai acontecer novamente ... é claro, só pode ser isso! ... cacete! o quê que eu estou fazendo aqui ainda? é melhor correr para casa enquanto ainda há tempo! “Hei, espera, rapaz, espera!... porra, esses loucos são de foder a paciência de qualquer um!”...

domingo, 24 de junho de 2007

Capítulo 8: A ida

João estava próximo à delegacia. A sensação de perseguição não desaparecia de modo algum e depois de passar quase todo o caminho olhando para trás, concluiu que só poderia ser coisa da sua cabeça. Afinal de contas, toda vez que alguém tem culpa no cartório, começa a agir como se todos a sua volta soubessem exatamente o que fez.

Apesar de toda a tensão do momento, teve tempo para se lembrar que estava com gases e sentiu vontade de peidar.

Devo alertar que, como qualquer outro ser humano, o rapaz tinha um hábito bastante peculiar que possivelmente não é comum na maioria das pessoas: João é do tipo de pessoa que não consegue peidar andando. E, sendo assim, parou em frente a um cartaz colado na parede, olhou para os dois lados da calçada para certificar que não vinha ninguém e fingiu lê-lo enquanto se aliviava.

– Cacete, doutor! – disse-lhe um homem que acabara de atravessar a rua e vinha na sua direção – se é para cagar, cague sentado, em pé é muito desconfortável!

João deu um pulo de susto. Não esperava por aquilo. Ficou totalmente constrangido. Mas quando se virou para encará-lo e pedir desculpas, tomou-se de raiva. Acabara de ser repreendido por um velho que, pelas roupas, ou melhor, o resto delas que vestia, era facilmente identificado como um morador de rua.

– Era só o que me faltava hoje! Receber uma lição de bons modos de um mendigo bêbado!

Parou de fingir sua leitura de cartaz e continuou a seguir para delegacia, agora com vontade de dar um soco na próxima pessoa que passasse.

– Será que Voltaire estava certo quando falou que é melhor correr o risco de salvar um homem culpado do que condenar um inocente? – falou o mendigo em um tom vago – bom, eu até que iria tentar correr o risco de salvar um homem culpado, mas me arrependi. Vou procurar um inocente para condenar. Até mais...

João virou-se para trás no mesmo instante. O mendigo não esperou pela resposta, já estava atravessando a rua para ir embora. Será que ele sabe de algo?

– Hei! – gritou João para o homem que cruzava a rua – venha cá, vamos conversar.

O mendigo parou, voltou e disse, segurando um sorriso no rosto:

– “Se queres conversar comigo, define primeiro os termos que usas”. Voltaire de novo.

– Era você que estava me seguindo até agora? – interrogou João, ignorando a última fala do mendigo.

– Prazer, meu nome é Lovateri e o seu?

– Responda minha pergunta!

– Talvez... – divertiu-se o mendigo – escuta, eu tenho muita coisa para fazer. Preciso conseguir uma antena de carro para acabar de construir um acendedor de churrasqueira e um cabo de vassoura para terminar um moinho em miniatura. Estou querendo salvar sua pele, mas, se fica todo ofensivo e agressivo, vou voltar a revirar o lixo que eu ganho mais.

– Como assim salvar minha pele?! – exclamou João – que história é essa?!

– Não se faça de bobo, rapaz. Eu vi você matando aquela moça e escrevendo aquela poesia e, diga-se de passagem, que poesia! Eu não perderia meu tempo se fosse com outra pessoa, mas...

– Puta que pariu! – interrompeu João – quer dizer que fui eu que escrevi aquilo lá também?

– Como assim “também”?

– Eu... eu não sei explicar – respondeu João, sentando-se no chão da rua, totalmente atônito – eu não sei como fiz aquilo, como também não sei como matei aquela mulher. Só sei que sai do bar e que cheguei vivo em casa. Hoje de manhã foi que apareceu umas visões na minha cabeça e eu lembrei da morte... Mas eu não escrevi aquela poesia, não pode ser!

– Como diria o índio de Gonçalves Dias: meninos, eu vi!

– Não pode ser... não pode ser... acho que estou ficando louco!

– “Todo mundo é louco, se olhado de perto”, Nelson Rodrigues.

– Cala a boca, seu velho bêbado! – explodiu João – você já está me irritando com esse monte de citações. Porque faz isso?!

– Eu, particularmente – respondeu Lovateri sem perder o tom de risinho – não concordo com muitas das citações que digo, mas, depois de tanto tempo dando aula na universidade, a gente se acostuma que, se quer ter credibilidade quando se fala algo, tem que citar um zé ruela qualquer.

– Olha, se você veio até aqui para me extorquir ameaçando não contar o que viu, pode esquecer! Eu estou indo neste exato momento me entregar na delegacia.

– “Penso, logo existo”... Descartes estava totalmente equivocado quando disse isso... Você é, sem dúvida, a prova real que não se precisa pensar para existir – ironizou o mendigo – Deixa de ser burro, rapaz. Eu te disse que vim a-ju-dar e não ex-tor-quir. Apesar de ambas as palavras possuírem vogais e serem achadas no dicionário, isso não quer dizer que seus significados sejam iguais.

– Me ajudar? Mas como assim?

– Olha, você, pelo visto, nunca havia realizado nada parecido com o que fez ontem e deve estar esvaziando as tripas de medo por causa da sua atitude. Eu vim aqui justamente para por juízo na sua cabeça. Você escreveu aquilo que qualquer um queria ter escrito e, se for olhar bem, você criou uma obra de arte perfeita sacrificando a vida de apenas uma pessoa. O cara que pintou o Domingo Sangrento precisou de muito mais de um caminhão de gente esquartejada para ficar grafado na história...

– Já chega – berrou João – eu devo estar ficando louco mesmo! Primeiro mato uma pessoa e escrevo coisas que não lembro, depois encontro um mendigo que faz citações, entende sobre pintura e deu aula na universidade! Olha, você não existe, tudo bem? É fruto da minha cabeça, só pode ser! Vai embora! Vai embora!

Dizendo isso, virou e saiu correndo em direção à delegacia, sem olhar para trás. O mendigo ainda teve tempo de gritar o seguinte antes de perdê-lo de vista:

– Talvez tudo foi apenas uma loucura! Pode ter sido uma insensatez de breves minutos, que talvez nunca mais venha a se repetir! Reconsidere sua decisão, talvez não seja necessário cometer a barbaridade que está preste a fazer!

sábado, 16 de junho de 2007

Capítulo 7: Relatos do filósofo - parte II

Terminada a escrita, o homem deixou a folha sobre o corpo da mulher e se foi. Esperei que virasse a esquina para então correr até moça. Olhei-a por uns instantes. Em seguida, quase cheguei a pegar o papel para ler, mas me lembrei que se fizesse isso deixaria minhas digitais ali.

Ora, eu não sou como os outros moradores de rua que têm a vida que têm por conseqüência do sistema, mas sim por opção! Burro eu não sou, ou senão nunca teria posto meus pés num tablado de uma sala de aula da universidade.

Pensando bem, esqueça o que falei, pois o fato de ter lecionado na academia não me isenta de ser burro... Numa próxima reflexão, descubro o motivo de não poder ser considerado burro.

Pois bem, como ia dizendo, não queria deixar minhas digitais ali. Reclinei meu corpo sobre a vítima e li o papel sem tocá-lo.

Que maravilha era aquilo! O conteúdo do papel não era de minha autoria, mas me apaixonei por aquela criação do mesmo modo que Pigmalião tomou-se de amor por Galatéia. Aquele misterioso rapaz fez os mais belos versos que alguém poderia escrever para outra pessoa.

Depois de contemplá-los por um tempo, segui o rastro do homem até a frente deste prédio.

Aprendido o caminho, voltei para o beco e busquei o carrinho de mão que uso para transportar materiais recicláveis. Estacionei-o no jardim que fica em frente à morada do Poeta e procurei descansar um pouco.

Acordei bem cedo hoje com o entregador de jornais. Talvez pelo excesso de sono, o homem não se deu conta que havia derrubado um exemplar no chão. Corri para pegá-lo assim que não tive mais o entregador à vista.

Neste exato momento sei que deve estar zombando de um filósofo que lê jornal, mas saiba que sinto a necessidade de ter contato com as palavras. Preciso pôr meus olhos sobre elas, nem que seja em um papel impresso em série que atende às exigências de alguns figurões.

Apesar dos pesares, devo dar o devido crédito ao pessoal do jornal desta vez. Pois foram tão velozes que conseguiram cobrir a matéria do poeta que assassina para a edição da manhã. Está certo que veio com alguns erros ortográficos e de concordância, mas não há como exigir muito. Além de terem pouco tempo para abordar o assunto, jornal sem esse tipo de crime à língua, não é jornal.

Depois de ler um pouco do que estava escrito naquelas páginas, rasguei um pedaço do papel para bolar um cigarro com a palha que carrego sempre comigo. A palha não é das melhores, mas graças ao sabor peculiar da tinta do jornal, o fumo fica bem prazeroso.

Quando já dava os últimos tragos no meu cigarro, eis que se abre a porta do prédio e por ela sai o autor das poesias.

Mirei-o por algum tempo. Aquela expressão de gênio não estava mais presente em sua face. Para falar a verdade, ele tinha um semblante um tanto quanto imbecil. Não sei explicar, mas seu rosto tinha um quê de perdedor.

Não andava mais imponente como na noite anterior, quando havia acabado de fazer o serviço e rumava para casa. Muito pelo contrário: agora vacilava muito no seu caminhar e parecia que cada passo que dava era um arrependimento.

Ficou parado por um tempo no ponto de ônibus, mas depois mudou de idéia. Eu não sei para onde ele iria, mas não devia ser longe, pois arriscou ir andando.

Segui-o de longe. Olhava com freqüência para trás. Com medo de ser descoberto, eu revirava vez ou outra as latas de lixo, fingindo que estava trabalhando.

Conforme íamos andando, não raras vezes, o rapaz parava para escutar discretamente quando alguém comentava sobre o Poeta Assassino. Algumas vezes, parecia-me que gostava de ouvir as tais pessoas, mas em outras parecia repelir tudo que escutava. Não precisava ser um bom observador para notar que o homem estava realmente confuso.

A princípio, quando o vi sair do prédio, não poderia imaginar que ele poderia estar sofrendo um conflito interno, entretanto, ao somar a incerteza dos passos com a direção em que rumava, pude supor, sem dúvida alguma, que o rapaz tinha como destino a delegacia da cidade. Provavelmente se entregaria e assumiria o crime cometido.

Muito desanimado por tal atitude, dei-o como caso perdido. Sabia que o chefe de polícia prenderia o primeiro lunático que aparecesse assumindo a autoria do assassinato. Pensei em parar de segui-lo e continuar a viver como antes.

Mas não o fiz.

Não o fiz porque as coisas na minha vida estavam um tanto quanto monótonas. Sinto falta de conversar com pessoas com cérebro, mesmo que não o usem direito. Para falar a verdade, tenho saudades até da época que lecionava na faculdade.

Acho que aquele poeta não convencional estava precisando mesmo era de alguém para conversar um pouco sobre os sabores e dissabores da vida e não de ser preso.

Por fim, depois de tantas divagações durante o caminho até a delegacia, cheguei a duas conclusões. A primeira era que precisava ajudar aquele rapaz e a segunda era que o finado Fernando Sabino sabia o que falava quando sentenciou que no fim tudo dá certo, mas que se não deu é porque ainda não chegou ao fim.

sábado, 9 de junho de 2007

Capítulo 6: Relatos do filósofo - Parte I

Aleluia! Achei que esse rapaz não ia mostrar a cara nunca!, exclamei comigo mesmo quando vi o Poeta colocando os pés para fora de casa.

A experiência que eu havia presenciado ontem foi simplesmente fascinante. Estava eu tentando me proteger do frio em um terreno vazio perto do parque quando vi uma moça muito apressada passando por mim, sem ao menos me notar encolhido ali no chão.

Pela respiração veloz e descompassada, deduzi que deveria estar sendo seguida por um desses marginais que buscam um pouco de diversão nessas noites monótonas de nossa cidade.

Eu não queria confusão, pois se esses arruaceiros percebem que deixaram testemunhas de seus crimes voltam e tiram uma lasca de coro das nossas costas. Sendo assim, procurei me esconder atrás de uma pilha de lixo e esperar que o serviço acabasse para que pudesse voltar para meu canto e decididamente dormir o sono dos justos.

Não demorou muito para que o tal rapaz passasse acelerado. A princípio, achei que o tal marginal deveria ter algum problema mental, uma vez que, pelo jeito de andar e pelo semblante mecânico, juro que cogitei a possibilidade de que não tinha ninguém pilotando aquilo. Parecia que era um corpo móvel revestido de carne, mas de interior oco. Lembro também que ele falava desesperadamente consigo próprio. Parecia até que queria falar todas as palavras que conhecia ao mesmo tempo.

Sabia que poderia me arrepender de sair de trás do meu esconderijo, mas graças à minha curiosidade de filósofo não resisti. Botei a cabeça para fora do beco e o vi quase correndo atrás da moça. Ela estava desesperada e o rapaz obcecado.

Como nos livros de Ian Fleming, encarnei um agente secreto da MI6 e o segui sorrateiramente pulando de sombra em sombra, de árvore em árvore.

Confesso que além de achar peculiar a atitude daquele homem, fazia bastante tempo que eu também não contribuía para a propagação da espécie. É claro que eu não iria fazer nada com a moça, mas só de ficar ali olhando já me daria por satisfeito por alguns dias.

Pois bem, eis então que a moça caiu. Cacete! Assim também fica fácil! Deu uma corridinha e caiu, esse cara está é com sorte, pensei frustradamente, por causa da ausência de dificuldade na caçada.

Comecei a imaginar o que o homem faria com a moça. Será que a faria desmaiar? Ou será a estupraria com ela consciente? Com base no que ouvi da boca da maioria das figuras que encontro nessa minha nova condição de vida, julguei que aconteceria a segunda hipótese. Dizem os entendidos do assunto que é bem melhor com a mulher se debatendo e te xingando. Mais excitante.

– Porra! É um necrófilo – deixei escapar num sussurro pasmado quando ele, ao contrário de despi-la e fazer a minha felicidade, simplesmente a matou.

O sangue começou a gelar em minhas veias. A coisa já tinha perdido a graça para mim. Depois daquilo eu havia me arrependido de ter saído do meu cantinho.

Muito decepcionado pela noite e já pensando em voltar para onde nunca deveria ter saído, eis que fui surpreendido novamente. O rapaz abriu a bolsa que carregava nas costas, tirou uma folha de papel e uma caneta. Ficou agachado ao lado da moça olhando-a por completo e escrevendo alguma coisa. De tempo em tempo parava, contemplava-a e tornava a escrever.

Senti um arrepio na espinha. Aquele homem não se parecia com o mesmo que havia passado por mim há poucos minutos. Seu rosto transparecia um quê de gênio. É difícil explicar isso, mas ao vê-lo naquela posição a escrever daquele modo, senti que Da Vinci deveria ter se comportado da mesma maneira enquanto pintava a Monalisa.

sábado, 2 de junho de 2007

Capítulo 5: Lacunas

João encostou a cabeça na parede do banheiro e deixou a água do chuveiro deslizar pelas costas enquanto tentava se lembrar o que havia feito na noite anterior.

Sabia que algo estranho havia acontecido, mas não sabia o quê. Uma peça faltava no quebra-cabeça do dia de ontem. Lembrava-se de tudo perfeitamente até pouco tempo depois de sair do bar, mas não fazia idéia de quando e como chegou à sua casa.

Notou que a pele da ponta de seus dedos começava a enrugar. A divagação tomou-lhe muito tempo e ele provavelmente estava atrasado para ir ao trabalho. Fechando a torneira, interrompeu não só a água, mas também o pensar no dia de ontem. Barbeou-se cantando algumas músicas e foi para o quarto se trocar.

No momento em que deixou a toalha sobre a cama, viu jogada no chão a calça que usou na noite anterior. Percebeu que estava rasgada na altura do joelho. Quase que instantaneamente, veio-lhe uma espécie de flash: viu a si mesmo andando muito rápido e tropeçando em uma mulher que se encontrava caída no chão.

O choque foi grande. Tentou se lembrar o que havia acontecido depois da colisão. Não conseguiu. Como habitualmente fazia quando se sentia incapaz de realizar algo, rumou em direção à porta do armário para socá-la, mas parou no meio do processo; quando levantou o braço para preparar o golpe, sentiu uma dor intensa.

Caminhou até o espelho e não precisou mais do que alguns segundos para notar que havia marcas de mordidas e arranhões um pouco abaixo do ombro. Outro estalo veio a sua mente: visualizou perfeitamente o que havia feito um pouco após a queda.

Caiu sentado na cama e exclamou:

– Porra, matei alguém!

Levou as mãos à cabeça e permaneceu nesta posição por algum tempo. Levantou. Andou de um lado para o outro. Sentou novamente. Além de não saber o porquê de ter matado a moça, não tinha a menor noção do que faria a respeito do assunto.

Foi à cozinha, pegou uma garrafa de vodca que guardava para momentos especiais e a trouxe para o quarto, em companhia de um maço cigarro amassado que achou sobre a mesa da sala.

Com o passar dos minutos, do turbilhão que possibilidades que lhe ocorreu, decidiu se entregar à polícia e confessar o crime. Mas logo as dúvidas começaram a aparecer. Confessar como? Não podia dizer: “Seu polícia, matei uma mulher porque... porque... não sei porque!”.

Não sabia o que dizer por que não compreendia o que fez.

Alguns tragos e goles depois, João ouviu uma voz que vinha da parte mais escondida do seu eu:

– Seja homem, João! Se errou, assuma. Se entregue e diga que matou sem motivo. A lei é dura, mas é lei. Cometeu um crime e pagará por isso!

A voz interna lhe convenceu.

João colocou a primeira roupa que achou, fumou mais alguns cigarros, tomou outro tanto da vodca e olhou para o seu quarto no que ele acreditou ser a última vez.

Mas quando estava para sair de casa, ele se deparou com o jornal do dia na soleira da porta. Na primeira página, viu duas fotos em destaque. Um delas, da mulher que havia matado, e a outra – com o dobro de tamanho – de um papel que se encontrava sobre a mulher, no qual era possível visualizar o que estava escrito.

João se espantou ao descobrir que aqueles rabiscos sobre a moça eram, na verdade, uma belíssima poesia assinada sob o seguinte nome: Johann G. B. Noel.


Sentou-se no sofá e com um largo sorriso no rosto começou a contemplar a poesia. Deduziu que lhe ocorreu uma espécie de surto por conseqüência da idéia que desenvolvera enquanto caminhava e, mesmo sem visar à moça como vítima, usou-a para tal fim.


João começou a sonhar os mesmos sonhos do passado ao ver um poema que poderia ser seu publicado na primeira capa de um jornal.

Seu combustível imaginativo era praticamente infinito e só não viajou mais longe em sua nave delirante, porque foi teletransportado para outro lugar, mais precisamente, para a realidade: havia um crime para assumir. Largou o jornal no sofá, fechou a porta de casa e caminhou em direção ao ponto de ônibus.

Enquanto esperava pelo coletivo, teve a sensação de que estava sendo vigiado. João olhava para os lados, mas não via nada de que pudesse desconfiar. Devo estar louco – pensou – Primeiro mato alguém, agora estou com mania de perseguição. Bem que eu podia estar em mais um daqueles meus sonhos estranhos...

Louco ou não, ele ficou tão incomodado com a sensação, que resolveu ir a pé, tendo a esperança de que fosse fruto da sua cabeça e que pensar e andar poderiam resolver o problema.

Ledo engano. Ele realmente estava sendo vigiado.

sábado, 26 de maio de 2007

Capítulo 4: Maldito sapato!

Depois que todos se foram, João resolveu tomar mais uma cerveja e pensar numa maneira eficaz das pessoas lerem o que escreve. Obviamente, essa ação foi sem sucesso. A única alternativa que ele enxergou foi a de ir para casa e dormir abraçado com a pequena glória há pouco conquistada.

João andava vagarosamente e pensava em tudo ao mesmo tempo em que não pensava em nada. Sua cabeça era como uma televisão sendo vítima de um tio chato que muda de canal de quinze em quinze segundos.

Enquanto as pernas de João o guiavam e sua cabeça não conseguia parar em nenhuma idéia que atraísse sua atenção, uma moça dobrou a esquina da quadra à frente e começou a andar no mesmo lado da rua que ele.

Ela olhou para trás e, enxergando João, pôs-se a andar mais depressa. Naquela hora da madrugada, era impossível pensar boa coisa dos que andam pela rua. Sentiu um leve friozinho na barriga e procurou imaginar coisas que a acalmasse, já que em breve chegaria à sua casa.

João não notou a mulher, como também não percebeu nada a sua volta, pois se concentrava em achar algo para pensar.

Quando estava quase por desistir de fazer funcionar seu cérebro por aquele dia, eureca! Sintonizou dois canais que o agradava.

Agora João relembrava no prazer do reconhecimento há pouco conquistado e, também, na brincadeira acontecida naquela noite sobre o assassino que deixa cordas de violino no púbis de suas vítimas.

Enquanto João caminhava, ora pensava numa coisa, ora maquinava a outra...

As duas divagações começaram pequenas, mas foram crescendo. A concentração de João estava tão voltada em desenvolver as idéias, que começou a ficar mais desatento ao que acontecia ao redor.

Ao passo que seus neurônios trabalhavam a todo vapor, seu corpo começou a ficar mais agitado e, conseqüentemente, seu passo foi se apressando mais e mais.

A moça notou que o homem que andava na mesma calçada que ela acentuou seu andar e logo uma série de aflições tomaram conta dela. Como contra-resposta à ação de João, a mulher acelerou mais ainda as suas pernas e começou a fazer orações.

A mente de João trabalhava muito rápido! O rapaz começou a pular de um canal para o outro de modo tão veloz que, em certo momento, fundiu os dois e criou um terceiro. Como resultado dessa fusão, ele formulou esta idéia: qual seria o pensamento das pessoas se o assassino tivesse colocado poesias sobre o corpo das jovens?

Neste exato momento João não era capaz de enxergar mais nada! Todos os seus sentidos estavam voltados para o novo pensamento que havia acabado de conceber e, em resposta à agilidade da mente, suas pernas pareciam querer voar.

A aflição da moça cresceu de maneira proporcional ao som que os sapatos de João faziam ao ganhar velocidade. Ela notou que estava quase para perder o controle sobre si e procurou tomar providências.

Aceitou o fato de que o homem andava muito mais de pressa que ela e que, se nada fizesse, em pouco segundos ele a alcançaria. Com base nisso, adotou a seguinte medida: correr e, quando tomasse uma boa distância, gritar por socorro.

“Maldito sapato!” Foi esse seu pensamento quando o salto do seu calçado quebrou no momento em que principiava a corrida. A moça foi ao chão – supressa por demais com as peripécias da Fortuna para conseguir gritar. Foi capaz apenas de libertar as lágrimas para um breve passeio sobre seu rosto.

João, que nada via ou ouvia, estava em uma espécie de transe mental quando atropelou algo que estava no chão e caiu.

sábado, 19 de maio de 2007

Capítulo 3: O começo de tudo

xxxxxxxxJoão estava em casa. Seus dias estavam sem sentido. Primeiro, acreditou que seria professor. Falhou. Depois, que seria poeta. Igual fracasso. Agora se viu sem opções, nunca pensou que precisaria de um plano C.

xxxxxxxxAo acaso, retomou em pensamento a lembrança de um dia em que, depois de uma prova dificílima que o deixou estressado, descarregou toda a sua fúria em um pobre morador de rua que, sentado no chão, comia em paz cantando um trecho de uma música de Roberto Carlos.

João, que não compreendia a felicidade do mendigo, descarregou:

– Sabia que você é um perdedor? Isso mesmo. Um per-de-dor. É isso que você é! Quantos anos você tem? Trinta? Quarenta? Quem se importa, né? Você não é nada, cara. Você é apenas mais um que passa por esse mundo sem função alguma. Se você morresse hoje, hein? Quem se importaria? Nin-guém! Ninguém se importaria com você!

xxxxxxxxVoltou para o presente. Derramava uma lágrima enquanto tentava entender o porquê de ter feito aquilo com o pobre homem. Procurou a resposta por um bom tempo, mas não encontrou nada que justificasse. Deixou o assunto inacabado.

Já esquecido da tal maldade, dirigiu-se à cozinha para beber água. No meio do caminho, passou em frente ao espelho e parou. Levantou a camisa, segurou entre os dedos indicador e polegar um pedaço sobressalente de sua barriga.

– O que você está fazendo aí? – disse ele, rindo em seguida.

Deu um pulo para trás quando ouviu a voz do Roberto Carlos responder:

– Eu é que pergunto: o que você está fazendo aí?

João encostou-se à parede e arregalou os olhos. Seu coração batia em fusa. Olhou para todos os lados até que, de súbito, viu o mendigo da sua lembrança dentro do espelho. Sentou-se no chão, quase em estado de choque, enquanto aquele homem crescia em tamanho, dentro do espelho.

xxxxxxxxO mendigo ria, gargalhava e apontava para João que sussurrava, falava e gritava pedidos de desculpas pelo ocorrido no passado.

O riso do homem do espelho não cessava.

Em dado momento, a gargalhada parou e o mendigo, com a voz igual à de Roberto Carlos, começou a falar:

– Sabia que você é um perdedor? Isso mesmo. Um per-de-dor. É isso que você é! Quantos anos você tem? Trinta? Quarenta? Quem se importa, né? Você não é nada, cara. Você é apenas mais um que passa por esse mundo sem função alguma. Se você morresse hoje, hein? Quem se importaria? Nin-guém! Ninguém se importa com você!

xxxxxxxxTerminado o discurso, o riso voltou. João tremia e nada enxergava de tanto que chorava. Não agüentou. Pegou um sapato que apareceu do seu lado e jogou no espelho com toda a força que tinha.

Acordou.

xxxxxxxxO despertador tocava, já era dia. Estava suado. Precisou de alguns segundos para entender que estava sonhando. Foi tomar banho, precisava ir trabalhar. Prometeu a si mesmo que procuraria um psicólogo ou um psiquiatra, o que fizesse um preço melhor, para perguntar se era normal ter sonhos tão reais.

xxxxxxxxSeus pesadelos começaram depois do encontro com o chefe editorial. Sentia-se sem identidade e sem função neste mundo. Trabalhava desmotivado, não tinha paciência com ninguém e no final de cada dia ia ao bar gastar dinheiro e destruir o fígado.

xxxxxxxxO dia desse último pesadelo só não foi igual aos outros porque teve um desejo que não lhe ocorria há muito tempo: vontade de escrever. Não compreendia essa sensação, pois, desde o dia que em recebeu o sonoro e agressivo “não” da editora, perdeu o ânimo de criar um simples verso qualquer.

Quando chegou ao bar, sentou em um canto calmo e isolado e começou a escrever...

O tempo corria e João não largava da caneta e do papel.

O bar já estava fechando e ele estava com várias garrafas vazias e muitas folhas cheias de poesias. De repente, uma das pessoas que encontrou na festa dos seus ex-colegas de faculdade perguntou o que tanto escrevia.

João, com a idéia de um verso na cabeça, respondeu mecanicamente que eram poesias. O rapaz, curioso como um ganso, mostrou interesse em ler algumas, mas João, diante ao convite, sentiu-se bloqueado, retraído pelo passado, dos risos, dos apelidos e, principalmente, da última humilhação.

Quando começava a ensaiar uma desculpa esfarrapada, o inesperado aconteceu: o outro já estava com um de seus textos na mão, declamando em voz alta.

Tarde demais, pensou João enquanto fechava os olhos e reclinava a cabeça na mesa; sabia que logo viria outra chacota.

Entretanto, para seu espanto, após a leitura o rapaz o elogiou e começou a declamar outros versos que estavam no verso do papel. João abriu os olhos e não pôde disfarçar a empolgação que sentia ao ouvir suas poesias na voz de outra pessoa.

Estava tão aéreo bailando nos sons de suas rimas, que não viu que aos poucos um círculo de pessoas se formou ao redor deles para também ouvir as declamações.

Palmas eram batidas no final de cada texto e, uma por uma, todas as poesias feitas por João naquela noite foram lidas.

O tempo correu, os textos acabaram e as pessoas se foram. Para João ficaram os elogios e as cobranças para que escrevesse um livro. Ele as rebatia com um sorriso amarelo e algumas frases vagas de tom pessimista.

João, com um sorriso no canto da boca, sabia que a volta para casa seria diferente dos outros dias.

Só não sabia que, o que aconteceria na rua nos próximos minutos, poderia mudar tanto a sua vida...

sábado, 12 de maio de 2007

Capítulo 2: A última investida

– Desculpe-nos, senhor...

– João – prontificou o rapaz, em auxílio ao chefe editorial que o havia atendido, em pé, em frente à sua sala, sem ao menos convidá-lo para entrar e tomar uma xícara de café enquanto conversavam.

– Isso! João... Como pude esquecer... Não repare, mas o excesso de trabalho contribui para minha falta de memória. Mas então, como ia dizendo, desculpe-nos senhor João, mas não podemos publicar suas poesias. O senhor escreve muito bem, porém a editora está entrando em uma fase de corte de gastos e...

E por aí seguiram as desculpas do chefe editorial, que João, ingenuamente, pensou ser a pessoa que lhe daria a oportunidade há tanto tempo perseguida.

Aquelas explicações seguidas de gentis pedidos de desculpas acabaram com todas as esperanças que havia alimentado antes desse editor entrar em sua vida.

João tentou argumentar sobre a qualidade de seus trabalhos, mas o editor começou a se mostrar impaciente. O rapaz foi tão incisivo na tentativa de convencê-lo do quão bom eram seus poemas que, inconscientemente, começou a aumentar o tom de voz. Isso foi irritando tanto o editor que, em certo momento, não agüentando mais a presença de João em sua frente, respirou fundo e descarregou:

– Chega! Escuta aqui, seu moleque: eu trabalho nesta editora há vinte anos! Vinte anos, você me ouviu? E nunca! Eu disse nunca! Nem aqui nem na China vi chefes editorias publicarem poesias de um Zé-Ninguém que vem bater na sua porta pedindo para que você leia porcarias e fiquem elogiando! Eu só te atendi porque você não parava de me torrar a paciência com seus e-mails insistentes! Agora some daqui e leve essa caixa cheia de lixo!

Foi ofendido quando menos esperava e isso o deixou sem chances de defesa. A única coisa que conseguiu fazer foi obedecer ao editor, saindo porta afora sem olhar para trás.

João pensou muito no que aquele editor falou e não se lembrou de nenhum poeta que surgiu da noite para o dia e teve suas poesias publicadas e reconhecidas.

Sempre haviam suas exceções, mas, como regra geral, notou que todos os poetas que tinham seu espaço no cenário cultural tiveram algum papel de destaque na sociedade antes de alcançar a fama pelo mérito de suas obras. Infelizmente as pessoas só dão credibilidade àquele que é uma figura conhecida de todos e não ao que possui idéias inteligentes e úteis, pensou.

Tudo o que mais queria fazer na vida não teria valor algum se, antes de tudo, não fosse famoso. Isso foi um choque.

João ficou tão irritado pela impotência de ter trabalhos de qualidade e saber que nunca teria algum prestígio por meio deles, que jogou a caixa com todas as suas poesias na primeira lata de lixo que achou pela rua.

Foi beber; era assim que respondia às vitórias ou derrotas. Passou os três períodos do dia em um bar que freqüentava desde a época da faculdade. A Taverna, um bom bar.

Era noite e João já havia bebido demais quando encontrou um conhecido de muito tempo. Esse o convidou para uma festa em um apartamento próximo dali. João tentou recusar, mas o outro foi tão insistente que acabou cedendo.

Na festa, João encontrou antigos amigos da época da graduação e, em meio a bebidas e cigarros, relembraram os velhos tempos e as muitas aventuras que aprontaram.

A noite foi caindo e as pessoas saindo. Poucos estavam com alguma consciência quando começaram a conversar sobre literatura. O grupo falou de livros estrangeiros e nacionais, clássicos e contemporâneos até que, em dado momento, comentaram com certa graça o enredo de um livro do Jô Soares em que um louco matava moças e colocava cordas de violino em seus púbis. Inventaram muitas coisas que o assassino poderia colocar no lugar das cordas.

Quando a brincadeira virou algazarra de bêbados, o dono do apartamento colocou todo mundo para fora.

João foi para casa dormir. No caminho, totalmente esquecido da derrota que teve naquele dia, sorria ao se lembrar da festa. Graças ao álcool, conseguiu ter um pouco de diversão antes da semana que teria que enfrentar...

sábado, 5 de maio de 2007

Capítulo 1: A nuvem mais alta que tocou com os pés

João pulou da cama, tomou um bom banho quente cantarolando a melodia de A Cavalgada das Valkirias de Wagner e colocou a sua melhor roupa, fazendo todo o barulho possível sem se importar com seus vizinhos mal humorados que resmungavam no andar debaixo.

João nunca era assim. Sempre foi uma pessoa quieta e fechada. Um homem de muitos pensamentos e poucos sorrisos, mas que naquele dia em especial não conseguia conter sua ansiedade.

De cinco em cinco minutos ia para frente do espelho e ensaiava uma voz parecida com a de atores famosos quando encarnam uma personagem inteligente e importante que discursa sobre como irá salvar o mundo ou algo assim. Treinava também algumas palavras difíceis que poderiam ser úteis na conversação que teria em duas horas com o chefe editorial de uma editora conceituada no mercado que prometeu ler e analisar alguns de seus escritos com a promessa que talvez o colocasse no seu time de escritores.

O encontro com esse homem era a chance mais expressiva de publicação de um livro de poesias que João conseguiu nos seus curtos vinte e cinco anos de existência.

O gosto pela poesia não era algo recente na vida de João. Resolveu ser poeta ainda muito jovem, mais precisamente quando sua professora da segunda série do ensino fundamental pediu para os alunos escreverem versinhos para suas mães. O pequeno João tomou tanto gosto pelo ofício que desde aquele dia não parou mais de escrever.

Depois daquele dia na escola, todos os presentes de datas importantes que dava eram poesias. Não havia uma pessoa do seu círculo de amizade que não tivesse sido presenteada com versos seus.

Ao contrário dos que afirma que todo o abismo é navegável a barquinhos de papel, o hábito exótico do pequeno João era motivo de zombaria para muitos, fazendo com que o pobre garoto recebesse alcunhas do tipo: Poetinha, Poeteiro e Camõezinho. Essa última era a predileta de sua mãe que, sem maldade alguma, acabava sempre por envergonhá-lo na frente de outras pessoas ao chamá-lo assim em público.

Por conseqüência das tais brincadeiras, não precisou de muito tempo para que o menino se retraísse até o ponto de parar de presentear as pessoas com suas obras.

Diferentemente do que você deve estar pensando agora, esse modo da sociedade agir com o menino João não o fez perder o gosto pela poesia, mas sim mudou seus hábitos: agora guardava tudo o que escrevia a sete chaves, só para si.

Apensar de não mostrar seus poemas a ninguém, sempre sonhou em ser um poeta reconhecido algum dia. Não vou dizer que esse era o único sonho daquele garoto, pois como dizia o gênio caolho português, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Com João não foi diferente. O tempo passou para ele e um novo desejo apareceu, ganhando o status de sonho oficial. Sem mais mistérios, digo que o rapaz, em certa fase da sua vida, cultivou a vontade de ser professor de literatura.

Os anos se passaram e João perdeu os epítetos: pequeno, menino e garoto. Agora João era apenas João.

Sem parar de poetar, apaixonava-se cada vez mais pelas letras. Gostava muito de estudar português, literatura e culturas antigas. Cursou Letras na faculdade e desde o primeiro ano teve várias idéias para incentivar o gosto pela literatura de seus futuros alunos. Entretanto, como nada que seja perfeito e feliz possa virar história de livro, devo narrar algo muito triste que aconteceu com João:

Em pouco tempo de faculdade descobriu que nunca conseguiria por as tais idéias em prática, pois, como seus professores sempre faziam questão de ressaltar, não adiantava nada ter idéias para mudar o mundo se o mundo não quiser mudar de idéias.

O tempo correu mais um pouco para ele e, finalmente, concluiu o curso superior. Nunca chegou a lecionar. A academia conseguiu desmotivá-lo de tal maneira ao mostrar como era a vida de um professor, que logo abandonou esse sonho e voltou à idéia de ser poeta.

Seria um crime dizer que a faculdade foi algo totalmente sem valor para o rapaz, pois, muito pelo contrário, colocou-o em contato com o pensamento de vários escritores e filósofos e o fez aprofundar-se mais em sua língua materna, o que era muito necessário para seguir o seu antigo sonho.

Por falar em sonho, vamos a mais um dissabor da vida de João: as tentativas para viver das suas poesias foram muitas e, fatalmente, todas sem sucesso.

Para se ter uma idéia, participou de concursos, distribuiu suas poesias gratuitamente na rua, declamou alguns versos em frente aos carros que esperavam o semáforo abrir e muito mais. Entretanto tudo que conseguiu foi uma promessa de receber um prêmio pelo correio – que nunca veio – alguns elogios de jovens no meio da rua e algumas buzinadas de um motorista apressado.

Mas agora era diferente. Iria conversar com a pessoa que poderia colocar o primeiro degrau da sua escada do reconhecimento literário.

Faltando uma hora para a entrevista, saiu de casa, tomou um ônibus até o centro da cidade e de lá foi caminhando em direção à editora, que não ficava muito longe. Enquanto caminhava, falava sozinho, discursava, respondia possíveis perguntas que o editor poderia fazer, imaginava-se como se levantaria para apertar a mão do homem e qual assinatura usaria nos autógrafos que espalharia na rua.

Sua cabeça ia a mil. Aproveitava para olhar tudo ao redor, uma vez que depois de ser uma figura conhecida do público não poderia mais caminhar em paz.

João estava tão confiante na entrevista que teria em breve, que até parou em frente a uma ótica e começou a namorar uns óculos que julgou excelentes para os dias em que teria que sair de casa sem ser reconhecido, devido a enorme fama que possuiria após ter publicado seu livro.

Dos muitos passeios intergalácticos que João fez, a nuvem mais alta que ele tocou com seus pés foi quando olhou para um outdoor vermelho e branco no alto de um prédio e imaginou sua foto sorridente lá encima, apontando com o dedo indicador para baixo com os dizeres saindo de sua boca: “Eu sou poeta porque bebo Coca-Cola, e você? Vai ficar de fora dessa?”.