xxxxxxxxAo acaso, retomou em pensamento a lembrança de um dia em que, depois de uma prova dificílima que o deixou estressado, descarregou toda a sua fúria em um pobre morador de rua que, sentado no chão, comia em paz cantando um trecho de uma música de Roberto Carlos.
João, que não compreendia a felicidade do mendigo, descarregou:
– Sabia que você é um perdedor? Isso mesmo. Um per-de-dor. É isso que você é! Quantos anos você tem? Trinta? Quarenta? Quem se importa, né? Você não é nada, cara. Você é apenas mais um que passa por esse mundo sem função alguma. Se você morresse hoje, hein? Quem se importaria? Nin-guém! Ninguém se importaria com você!
xxxxxxxxVoltou para o presente. Derramava uma lágrima enquanto tentava entender o porquê de ter feito aquilo com o pobre homem. Procurou a resposta por um bom tempo, mas não encontrou nada que justificasse. Deixou o assunto inacabado.
Já esquecido da tal maldade, dirigiu-se à cozinha para beber água. No meio do caminho, passou em frente ao espelho e parou. Levantou a camisa, segurou entre os dedos indicador e polegar um pedaço sobressalente de sua barriga.
– O que você está fazendo aí? – disse ele, rindo em seguida.
Deu um pulo para trás quando ouviu a voz do Roberto Carlos responder:
– Eu é que pergunto: o que você está fazendo aí?
João encostou-se à parede e arregalou os olhos. Seu coração batia
xxxxxxxxO mendigo ria, gargalhava e apontava para João que sussurrava, falava e gritava pedidos de desculpas pelo ocorrido no passado.
O riso do homem do espelho não cessava.
Em dado momento, a gargalhada parou e o mendigo, com a voz igual à de Roberto Carlos, começou a falar:
– Sabia que você é um perdedor? Isso mesmo. Um per-de-dor. É isso que você é! Quantos anos você tem? Trinta? Quarenta? Quem se importa, né? Você não é nada, cara. Você é apenas mais um que passa por esse mundo sem função alguma. Se você morresse hoje, hein? Quem se importaria? Nin-guém! Ninguém se importa com você!
xxxxxxxxTerminado o discurso, o riso voltou. João tremia e nada enxergava de tanto que chorava. Não agüentou. Pegou um sapato que apareceu do seu lado e jogou no espelho com toda a força que tinha.
Acordou.
xxxxxxxxO despertador tocava, já era dia. Estava suado. Precisou de alguns segundos para entender que estava sonhando. Foi tomar banho, precisava ir trabalhar. Prometeu a si mesmo que procuraria um psicólogo ou um psiquiatra, o que fizesse um preço melhor, para perguntar se era normal ter sonhos tão reais.
xxxxxxxxSeus pesadelos começaram depois do encontro com o chefe editorial. Sentia-se sem identidade e sem função neste mundo. Trabalhava desmotivado, não tinha paciência com ninguém e no final de cada dia ia ao bar gastar dinheiro e destruir o fígado.
xxxxxxxxO dia desse último pesadelo só não foi igual aos outros porque teve um desejo que não lhe ocorria há muito tempo: vontade de escrever. Não compreendia essa sensação, pois, desde o dia que em recebeu o sonoro e agressivo “não” da editora, perdeu o ânimo de criar um simples verso qualquer.
Quando chegou ao bar, sentou em um canto calmo e isolado e começou a escrever...
O tempo corria e João não largava da caneta e do papel.
O bar já estava fechando e ele estava com várias garrafas vazias e muitas folhas cheias de poesias. De repente, uma das pessoas que encontrou na festa dos seus ex-colegas de faculdade perguntou o que tanto escrevia.
João, com a idéia de um verso na cabeça, respondeu mecanicamente que eram poesias. O rapaz, curioso como um ganso, mostrou interesse em ler algumas, mas João, diante ao convite, sentiu-se bloqueado, retraído pelo passado, dos risos, dos apelidos e, principalmente, da última humilhação.
Quando começava a ensaiar uma desculpa esfarrapada, o inesperado aconteceu: o outro já estava com um de seus textos na mão, declamando em voz alta.
Tarde demais, pensou João enquanto fechava os olhos e reclinava a cabeça na mesa; sabia que logo viria outra chacota.
Entretanto, para seu espanto, após a leitura o rapaz o elogiou e começou a declamar outros versos que estavam no verso do papel. João abriu os olhos e não pôde disfarçar a empolgação que sentia ao ouvir suas poesias na voz de outra pessoa.
Estava tão aéreo bailando nos sons de suas rimas, que não viu que aos poucos um círculo de pessoas se formou ao redor deles para também ouvir as declamações.
Palmas eram batidas no final de cada texto e, uma por uma, todas as poesias feitas por João naquela noite foram lidas.
O tempo correu, os textos acabaram e as pessoas se foram. Para João ficaram os elogios e as cobranças para que escrevesse um livro. Ele as rebatia com um sorriso amarelo e algumas frases vagas de tom pessimista.
João, com um sorriso no canto da boca, sabia que a volta para casa seria diferente dos outros dias.
Só não sabia que, o que aconteceria na rua nos próximos minutos, poderia mudar tanto a sua vida...