Apesar de toda a tensão do momento, teve tempo para se lembrar que estava com gases e sentiu vontade de peidar.
– Cacete, doutor! – disse-lhe um homem que acabara de atravessar a rua e vinha na sua direção – se é para cagar, cague sentado, em pé é muito desconfortável!
João deu um pulo de susto. Não esperava por aquilo. Ficou totalmente constrangido. Mas quando se virou para encará-lo e pedir desculpas, tomou-se de raiva. Acabara de ser repreendido por um velho que, pelas roupas, ou melhor, o resto delas que vestia, era facilmente identificado como um morador de rua.
– Era só o que me faltava hoje! Receber uma lição de bons modos de um mendigo bêbado!
Parou de fingir sua leitura de cartaz e continuou a seguir para delegacia, agora com vontade de dar um soco na próxima pessoa que passasse.
– Será que Voltaire estava certo quando falou que é melhor correr o risco de salvar um homem culpado do que condenar um inocente? – falou o mendigo em um tom vago – bom, eu até que iria tentar correr o risco de salvar um homem culpado, mas me arrependi. Vou procurar um inocente para condenar. Até mais...
João virou-se para trás no mesmo instante. O mendigo não esperou pela resposta, já estava atravessando a rua para ir embora. Será que ele sabe de algo?
– Hei! – gritou João para o homem que cruzava a rua – venha cá, vamos conversar.
O mendigo parou, voltou e disse, segurando um sorriso no rosto:
– “Se queres conversar comigo, define primeiro os termos que usas”. Voltaire de novo.
– Era você que estava me seguindo até agora? – interrogou João, ignorando a última fala do mendigo.
– Prazer, meu nome é Lovateri e o seu?
– Responda minha pergunta!
– Talvez... – divertiu-se o mendigo – escuta, eu tenho muita coisa para fazer. Preciso conseguir uma antena de carro para acabar de construir um acendedor de churrasqueira e um cabo de vassoura para terminar um moinho
– Como assim salvar minha pele?! – exclamou João – que história é essa?!
– Não se faça de bobo, rapaz. Eu vi você matando aquela moça e escrevendo aquela poesia e, diga-se de passagem, que poesia! Eu não perderia meu tempo se fosse com outra pessoa, mas...
– Puta que pariu! – interrompeu João – quer dizer que fui eu que escrevi aquilo lá também?
– Como assim “também”?
– Eu... eu não sei explicar – respondeu João, sentando-se no chão da rua, totalmente atônito – eu não sei como fiz aquilo, como também não sei como matei aquela mulher. Só sei que sai do bar e que cheguei vivo
– Como diria o índio de Gonçalves Dias: meninos, eu vi!
– Não pode ser... não pode ser... acho que estou ficando louco!
– “Todo mundo é louco, se olhado de perto”, Nelson Rodrigues.
– Cala a boca, seu velho bêbado! – explodiu João – você já está me irritando com esse monte de citações. Porque faz isso?!
– Eu, particularmente – respondeu Lovateri sem perder o tom de risinho – não concordo com muitas das citações que digo, mas, depois de tanto tempo dando aula na universidade, a gente se acostuma que, se quer ter credibilidade quando se fala algo, tem que citar um zé ruela qualquer.
– Olha, se você veio até aqui para me extorquir ameaçando não contar o que viu, pode esquecer! Eu estou indo neste exato momento me entregar na delegacia.
– “Penso, logo existo”... Descartes estava totalmente equivocado quando disse isso... Você é, sem dúvida, a prova real que não se precisa pensar para existir – ironizou o mendigo – Deixa de ser burro, rapaz. Eu te disse que vim a-ju-dar e não ex-tor-quir. Apesar de ambas as palavras possuírem vogais e serem achadas no dicionário, isso não quer dizer que seus significados sejam iguais.
– Me ajudar? Mas como assim?
– Olha, você, pelo visto, nunca havia realizado nada parecido com o que fez ontem e deve estar esvaziando as tripas de medo por causa da sua atitude. Eu vim aqui justamente para por juízo na sua cabeça. Você escreveu aquilo que qualquer um queria ter escrito e, se for olhar bem, você criou uma obra de arte perfeita sacrificando a vida de apenas uma pessoa. O cara que pintou o Domingo Sangrento precisou de muito mais de um caminhão de gente esquartejada para ficar grafado na história...
– Já chega – berrou João – eu devo estar ficando louco mesmo! Primeiro mato uma pessoa e escrevo coisas que não lembro, depois encontro um mendigo que faz citações, entende sobre pintura e deu aula na universidade! Olha, você não existe, tudo bem? É fruto da minha cabeça, só pode ser! Vai embora! Vai embora!
Dizendo isso, virou e saiu correndo em direção à delegacia, sem olhar para trás. O mendigo ainda teve tempo de gritar o seguinte antes de perdê-lo de vista:
– Talvez tudo foi apenas uma loucura! Pode ter sido uma insensatez de breves minutos, que talvez nunca mais venha a se repetir! Reconsidere sua decisão, talvez não seja necessário cometer a barbaridade que está preste a fazer!
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