domingo, 24 de junho de 2007

Capítulo 8: A ida

João estava próximo à delegacia. A sensação de perseguição não desaparecia de modo algum e depois de passar quase todo o caminho olhando para trás, concluiu que só poderia ser coisa da sua cabeça. Afinal de contas, toda vez que alguém tem culpa no cartório, começa a agir como se todos a sua volta soubessem exatamente o que fez.

Apesar de toda a tensão do momento, teve tempo para se lembrar que estava com gases e sentiu vontade de peidar.

Devo alertar que, como qualquer outro ser humano, o rapaz tinha um hábito bastante peculiar que possivelmente não é comum na maioria das pessoas: João é do tipo de pessoa que não consegue peidar andando. E, sendo assim, parou em frente a um cartaz colado na parede, olhou para os dois lados da calçada para certificar que não vinha ninguém e fingiu lê-lo enquanto se aliviava.

– Cacete, doutor! – disse-lhe um homem que acabara de atravessar a rua e vinha na sua direção – se é para cagar, cague sentado, em pé é muito desconfortável!

João deu um pulo de susto. Não esperava por aquilo. Ficou totalmente constrangido. Mas quando se virou para encará-lo e pedir desculpas, tomou-se de raiva. Acabara de ser repreendido por um velho que, pelas roupas, ou melhor, o resto delas que vestia, era facilmente identificado como um morador de rua.

– Era só o que me faltava hoje! Receber uma lição de bons modos de um mendigo bêbado!

Parou de fingir sua leitura de cartaz e continuou a seguir para delegacia, agora com vontade de dar um soco na próxima pessoa que passasse.

– Será que Voltaire estava certo quando falou que é melhor correr o risco de salvar um homem culpado do que condenar um inocente? – falou o mendigo em um tom vago – bom, eu até que iria tentar correr o risco de salvar um homem culpado, mas me arrependi. Vou procurar um inocente para condenar. Até mais...

João virou-se para trás no mesmo instante. O mendigo não esperou pela resposta, já estava atravessando a rua para ir embora. Será que ele sabe de algo?

– Hei! – gritou João para o homem que cruzava a rua – venha cá, vamos conversar.

O mendigo parou, voltou e disse, segurando um sorriso no rosto:

– “Se queres conversar comigo, define primeiro os termos que usas”. Voltaire de novo.

– Era você que estava me seguindo até agora? – interrogou João, ignorando a última fala do mendigo.

– Prazer, meu nome é Lovateri e o seu?

– Responda minha pergunta!

– Talvez... – divertiu-se o mendigo – escuta, eu tenho muita coisa para fazer. Preciso conseguir uma antena de carro para acabar de construir um acendedor de churrasqueira e um cabo de vassoura para terminar um moinho em miniatura. Estou querendo salvar sua pele, mas, se fica todo ofensivo e agressivo, vou voltar a revirar o lixo que eu ganho mais.

– Como assim salvar minha pele?! – exclamou João – que história é essa?!

– Não se faça de bobo, rapaz. Eu vi você matando aquela moça e escrevendo aquela poesia e, diga-se de passagem, que poesia! Eu não perderia meu tempo se fosse com outra pessoa, mas...

– Puta que pariu! – interrompeu João – quer dizer que fui eu que escrevi aquilo lá também?

– Como assim “também”?

– Eu... eu não sei explicar – respondeu João, sentando-se no chão da rua, totalmente atônito – eu não sei como fiz aquilo, como também não sei como matei aquela mulher. Só sei que sai do bar e que cheguei vivo em casa. Hoje de manhã foi que apareceu umas visões na minha cabeça e eu lembrei da morte... Mas eu não escrevi aquela poesia, não pode ser!

– Como diria o índio de Gonçalves Dias: meninos, eu vi!

– Não pode ser... não pode ser... acho que estou ficando louco!

– “Todo mundo é louco, se olhado de perto”, Nelson Rodrigues.

– Cala a boca, seu velho bêbado! – explodiu João – você já está me irritando com esse monte de citações. Porque faz isso?!

– Eu, particularmente – respondeu Lovateri sem perder o tom de risinho – não concordo com muitas das citações que digo, mas, depois de tanto tempo dando aula na universidade, a gente se acostuma que, se quer ter credibilidade quando se fala algo, tem que citar um zé ruela qualquer.

– Olha, se você veio até aqui para me extorquir ameaçando não contar o que viu, pode esquecer! Eu estou indo neste exato momento me entregar na delegacia.

– “Penso, logo existo”... Descartes estava totalmente equivocado quando disse isso... Você é, sem dúvida, a prova real que não se precisa pensar para existir – ironizou o mendigo – Deixa de ser burro, rapaz. Eu te disse que vim a-ju-dar e não ex-tor-quir. Apesar de ambas as palavras possuírem vogais e serem achadas no dicionário, isso não quer dizer que seus significados sejam iguais.

– Me ajudar? Mas como assim?

– Olha, você, pelo visto, nunca havia realizado nada parecido com o que fez ontem e deve estar esvaziando as tripas de medo por causa da sua atitude. Eu vim aqui justamente para por juízo na sua cabeça. Você escreveu aquilo que qualquer um queria ter escrito e, se for olhar bem, você criou uma obra de arte perfeita sacrificando a vida de apenas uma pessoa. O cara que pintou o Domingo Sangrento precisou de muito mais de um caminhão de gente esquartejada para ficar grafado na história...

– Já chega – berrou João – eu devo estar ficando louco mesmo! Primeiro mato uma pessoa e escrevo coisas que não lembro, depois encontro um mendigo que faz citações, entende sobre pintura e deu aula na universidade! Olha, você não existe, tudo bem? É fruto da minha cabeça, só pode ser! Vai embora! Vai embora!

Dizendo isso, virou e saiu correndo em direção à delegacia, sem olhar para trás. O mendigo ainda teve tempo de gritar o seguinte antes de perdê-lo de vista:

– Talvez tudo foi apenas uma loucura! Pode ter sido uma insensatez de breves minutos, que talvez nunca mais venha a se repetir! Reconsidere sua decisão, talvez não seja necessário cometer a barbaridade que está preste a fazer!

sábado, 16 de junho de 2007

Capítulo 7: Relatos do filósofo - parte II

Terminada a escrita, o homem deixou a folha sobre o corpo da mulher e se foi. Esperei que virasse a esquina para então correr até moça. Olhei-a por uns instantes. Em seguida, quase cheguei a pegar o papel para ler, mas me lembrei que se fizesse isso deixaria minhas digitais ali.

Ora, eu não sou como os outros moradores de rua que têm a vida que têm por conseqüência do sistema, mas sim por opção! Burro eu não sou, ou senão nunca teria posto meus pés num tablado de uma sala de aula da universidade.

Pensando bem, esqueça o que falei, pois o fato de ter lecionado na academia não me isenta de ser burro... Numa próxima reflexão, descubro o motivo de não poder ser considerado burro.

Pois bem, como ia dizendo, não queria deixar minhas digitais ali. Reclinei meu corpo sobre a vítima e li o papel sem tocá-lo.

Que maravilha era aquilo! O conteúdo do papel não era de minha autoria, mas me apaixonei por aquela criação do mesmo modo que Pigmalião tomou-se de amor por Galatéia. Aquele misterioso rapaz fez os mais belos versos que alguém poderia escrever para outra pessoa.

Depois de contemplá-los por um tempo, segui o rastro do homem até a frente deste prédio.

Aprendido o caminho, voltei para o beco e busquei o carrinho de mão que uso para transportar materiais recicláveis. Estacionei-o no jardim que fica em frente à morada do Poeta e procurei descansar um pouco.

Acordei bem cedo hoje com o entregador de jornais. Talvez pelo excesso de sono, o homem não se deu conta que havia derrubado um exemplar no chão. Corri para pegá-lo assim que não tive mais o entregador à vista.

Neste exato momento sei que deve estar zombando de um filósofo que lê jornal, mas saiba que sinto a necessidade de ter contato com as palavras. Preciso pôr meus olhos sobre elas, nem que seja em um papel impresso em série que atende às exigências de alguns figurões.

Apesar dos pesares, devo dar o devido crédito ao pessoal do jornal desta vez. Pois foram tão velozes que conseguiram cobrir a matéria do poeta que assassina para a edição da manhã. Está certo que veio com alguns erros ortográficos e de concordância, mas não há como exigir muito. Além de terem pouco tempo para abordar o assunto, jornal sem esse tipo de crime à língua, não é jornal.

Depois de ler um pouco do que estava escrito naquelas páginas, rasguei um pedaço do papel para bolar um cigarro com a palha que carrego sempre comigo. A palha não é das melhores, mas graças ao sabor peculiar da tinta do jornal, o fumo fica bem prazeroso.

Quando já dava os últimos tragos no meu cigarro, eis que se abre a porta do prédio e por ela sai o autor das poesias.

Mirei-o por algum tempo. Aquela expressão de gênio não estava mais presente em sua face. Para falar a verdade, ele tinha um semblante um tanto quanto imbecil. Não sei explicar, mas seu rosto tinha um quê de perdedor.

Não andava mais imponente como na noite anterior, quando havia acabado de fazer o serviço e rumava para casa. Muito pelo contrário: agora vacilava muito no seu caminhar e parecia que cada passo que dava era um arrependimento.

Ficou parado por um tempo no ponto de ônibus, mas depois mudou de idéia. Eu não sei para onde ele iria, mas não devia ser longe, pois arriscou ir andando.

Segui-o de longe. Olhava com freqüência para trás. Com medo de ser descoberto, eu revirava vez ou outra as latas de lixo, fingindo que estava trabalhando.

Conforme íamos andando, não raras vezes, o rapaz parava para escutar discretamente quando alguém comentava sobre o Poeta Assassino. Algumas vezes, parecia-me que gostava de ouvir as tais pessoas, mas em outras parecia repelir tudo que escutava. Não precisava ser um bom observador para notar que o homem estava realmente confuso.

A princípio, quando o vi sair do prédio, não poderia imaginar que ele poderia estar sofrendo um conflito interno, entretanto, ao somar a incerteza dos passos com a direção em que rumava, pude supor, sem dúvida alguma, que o rapaz tinha como destino a delegacia da cidade. Provavelmente se entregaria e assumiria o crime cometido.

Muito desanimado por tal atitude, dei-o como caso perdido. Sabia que o chefe de polícia prenderia o primeiro lunático que aparecesse assumindo a autoria do assassinato. Pensei em parar de segui-lo e continuar a viver como antes.

Mas não o fiz.

Não o fiz porque as coisas na minha vida estavam um tanto quanto monótonas. Sinto falta de conversar com pessoas com cérebro, mesmo que não o usem direito. Para falar a verdade, tenho saudades até da época que lecionava na faculdade.

Acho que aquele poeta não convencional estava precisando mesmo era de alguém para conversar um pouco sobre os sabores e dissabores da vida e não de ser preso.

Por fim, depois de tantas divagações durante o caminho até a delegacia, cheguei a duas conclusões. A primeira era que precisava ajudar aquele rapaz e a segunda era que o finado Fernando Sabino sabia o que falava quando sentenciou que no fim tudo dá certo, mas que se não deu é porque ainda não chegou ao fim.

sábado, 9 de junho de 2007

Capítulo 6: Relatos do filósofo - Parte I

Aleluia! Achei que esse rapaz não ia mostrar a cara nunca!, exclamei comigo mesmo quando vi o Poeta colocando os pés para fora de casa.

A experiência que eu havia presenciado ontem foi simplesmente fascinante. Estava eu tentando me proteger do frio em um terreno vazio perto do parque quando vi uma moça muito apressada passando por mim, sem ao menos me notar encolhido ali no chão.

Pela respiração veloz e descompassada, deduzi que deveria estar sendo seguida por um desses marginais que buscam um pouco de diversão nessas noites monótonas de nossa cidade.

Eu não queria confusão, pois se esses arruaceiros percebem que deixaram testemunhas de seus crimes voltam e tiram uma lasca de coro das nossas costas. Sendo assim, procurei me esconder atrás de uma pilha de lixo e esperar que o serviço acabasse para que pudesse voltar para meu canto e decididamente dormir o sono dos justos.

Não demorou muito para que o tal rapaz passasse acelerado. A princípio, achei que o tal marginal deveria ter algum problema mental, uma vez que, pelo jeito de andar e pelo semblante mecânico, juro que cogitei a possibilidade de que não tinha ninguém pilotando aquilo. Parecia que era um corpo móvel revestido de carne, mas de interior oco. Lembro também que ele falava desesperadamente consigo próprio. Parecia até que queria falar todas as palavras que conhecia ao mesmo tempo.

Sabia que poderia me arrepender de sair de trás do meu esconderijo, mas graças à minha curiosidade de filósofo não resisti. Botei a cabeça para fora do beco e o vi quase correndo atrás da moça. Ela estava desesperada e o rapaz obcecado.

Como nos livros de Ian Fleming, encarnei um agente secreto da MI6 e o segui sorrateiramente pulando de sombra em sombra, de árvore em árvore.

Confesso que além de achar peculiar a atitude daquele homem, fazia bastante tempo que eu também não contribuía para a propagação da espécie. É claro que eu não iria fazer nada com a moça, mas só de ficar ali olhando já me daria por satisfeito por alguns dias.

Pois bem, eis então que a moça caiu. Cacete! Assim também fica fácil! Deu uma corridinha e caiu, esse cara está é com sorte, pensei frustradamente, por causa da ausência de dificuldade na caçada.

Comecei a imaginar o que o homem faria com a moça. Será que a faria desmaiar? Ou será a estupraria com ela consciente? Com base no que ouvi da boca da maioria das figuras que encontro nessa minha nova condição de vida, julguei que aconteceria a segunda hipótese. Dizem os entendidos do assunto que é bem melhor com a mulher se debatendo e te xingando. Mais excitante.

– Porra! É um necrófilo – deixei escapar num sussurro pasmado quando ele, ao contrário de despi-la e fazer a minha felicidade, simplesmente a matou.

O sangue começou a gelar em minhas veias. A coisa já tinha perdido a graça para mim. Depois daquilo eu havia me arrependido de ter saído do meu cantinho.

Muito decepcionado pela noite e já pensando em voltar para onde nunca deveria ter saído, eis que fui surpreendido novamente. O rapaz abriu a bolsa que carregava nas costas, tirou uma folha de papel e uma caneta. Ficou agachado ao lado da moça olhando-a por completo e escrevendo alguma coisa. De tempo em tempo parava, contemplava-a e tornava a escrever.

Senti um arrepio na espinha. Aquele homem não se parecia com o mesmo que havia passado por mim há poucos minutos. Seu rosto transparecia um quê de gênio. É difícil explicar isso, mas ao vê-lo naquela posição a escrever daquele modo, senti que Da Vinci deveria ter se comportado da mesma maneira enquanto pintava a Monalisa.

sábado, 2 de junho de 2007

Capítulo 5: Lacunas

João encostou a cabeça na parede do banheiro e deixou a água do chuveiro deslizar pelas costas enquanto tentava se lembrar o que havia feito na noite anterior.

Sabia que algo estranho havia acontecido, mas não sabia o quê. Uma peça faltava no quebra-cabeça do dia de ontem. Lembrava-se de tudo perfeitamente até pouco tempo depois de sair do bar, mas não fazia idéia de quando e como chegou à sua casa.

Notou que a pele da ponta de seus dedos começava a enrugar. A divagação tomou-lhe muito tempo e ele provavelmente estava atrasado para ir ao trabalho. Fechando a torneira, interrompeu não só a água, mas também o pensar no dia de ontem. Barbeou-se cantando algumas músicas e foi para o quarto se trocar.

No momento em que deixou a toalha sobre a cama, viu jogada no chão a calça que usou na noite anterior. Percebeu que estava rasgada na altura do joelho. Quase que instantaneamente, veio-lhe uma espécie de flash: viu a si mesmo andando muito rápido e tropeçando em uma mulher que se encontrava caída no chão.

O choque foi grande. Tentou se lembrar o que havia acontecido depois da colisão. Não conseguiu. Como habitualmente fazia quando se sentia incapaz de realizar algo, rumou em direção à porta do armário para socá-la, mas parou no meio do processo; quando levantou o braço para preparar o golpe, sentiu uma dor intensa.

Caminhou até o espelho e não precisou mais do que alguns segundos para notar que havia marcas de mordidas e arranhões um pouco abaixo do ombro. Outro estalo veio a sua mente: visualizou perfeitamente o que havia feito um pouco após a queda.

Caiu sentado na cama e exclamou:

– Porra, matei alguém!

Levou as mãos à cabeça e permaneceu nesta posição por algum tempo. Levantou. Andou de um lado para o outro. Sentou novamente. Além de não saber o porquê de ter matado a moça, não tinha a menor noção do que faria a respeito do assunto.

Foi à cozinha, pegou uma garrafa de vodca que guardava para momentos especiais e a trouxe para o quarto, em companhia de um maço cigarro amassado que achou sobre a mesa da sala.

Com o passar dos minutos, do turbilhão que possibilidades que lhe ocorreu, decidiu se entregar à polícia e confessar o crime. Mas logo as dúvidas começaram a aparecer. Confessar como? Não podia dizer: “Seu polícia, matei uma mulher porque... porque... não sei porque!”.

Não sabia o que dizer por que não compreendia o que fez.

Alguns tragos e goles depois, João ouviu uma voz que vinha da parte mais escondida do seu eu:

– Seja homem, João! Se errou, assuma. Se entregue e diga que matou sem motivo. A lei é dura, mas é lei. Cometeu um crime e pagará por isso!

A voz interna lhe convenceu.

João colocou a primeira roupa que achou, fumou mais alguns cigarros, tomou outro tanto da vodca e olhou para o seu quarto no que ele acreditou ser a última vez.

Mas quando estava para sair de casa, ele se deparou com o jornal do dia na soleira da porta. Na primeira página, viu duas fotos em destaque. Um delas, da mulher que havia matado, e a outra – com o dobro de tamanho – de um papel que se encontrava sobre a mulher, no qual era possível visualizar o que estava escrito.

João se espantou ao descobrir que aqueles rabiscos sobre a moça eram, na verdade, uma belíssima poesia assinada sob o seguinte nome: Johann G. B. Noel.


Sentou-se no sofá e com um largo sorriso no rosto começou a contemplar a poesia. Deduziu que lhe ocorreu uma espécie de surto por conseqüência da idéia que desenvolvera enquanto caminhava e, mesmo sem visar à moça como vítima, usou-a para tal fim.


João começou a sonhar os mesmos sonhos do passado ao ver um poema que poderia ser seu publicado na primeira capa de um jornal.

Seu combustível imaginativo era praticamente infinito e só não viajou mais longe em sua nave delirante, porque foi teletransportado para outro lugar, mais precisamente, para a realidade: havia um crime para assumir. Largou o jornal no sofá, fechou a porta de casa e caminhou em direção ao ponto de ônibus.

Enquanto esperava pelo coletivo, teve a sensação de que estava sendo vigiado. João olhava para os lados, mas não via nada de que pudesse desconfiar. Devo estar louco – pensou – Primeiro mato alguém, agora estou com mania de perseguição. Bem que eu podia estar em mais um daqueles meus sonhos estranhos...

Louco ou não, ele ficou tão incomodado com a sensação, que resolveu ir a pé, tendo a esperança de que fosse fruto da sua cabeça e que pensar e andar poderiam resolver o problema.

Ledo engano. Ele realmente estava sendo vigiado.