– Desculpe-nos, senhor...
– João – prontificou o rapaz, em auxílio ao chefe editorial que o havia atendido, em pé, em frente à sua sala, sem ao menos convidá-lo para entrar e tomar uma xícara de café enquanto conversavam.
– Isso! João... Como pude esquecer... Não repare, mas o excesso de trabalho contribui para minha falta de memória. Mas então, como ia dizendo, desculpe-nos senhor João, mas não podemos publicar suas poesias. O senhor escreve muito bem, porém a editora está entrando em uma fase de corte de gastos e...
E por aí seguiram as desculpas do chefe editorial, que João, ingenuamente, pensou ser a pessoa que lhe daria a oportunidade há tanto tempo perseguida.
Aquelas explicações seguidas de gentis pedidos de desculpas acabaram com todas as esperanças que havia alimentado antes desse editor entrar em sua vida.
João tentou argumentar sobre a qualidade de seus trabalhos, mas o editor começou a se mostrar impaciente. O rapaz foi tão incisivo na tentativa de convencê-lo do quão bom eram seus poemas que, inconscientemente, começou a aumentar o tom de voz. Isso foi irritando tanto o editor que, em certo momento, não agüentando mais a presença de João em sua frente, respirou fundo e descarregou:
– Chega! Escuta aqui, seu moleque: eu trabalho nesta editora há vinte anos! Vinte anos, você me ouviu? E nunca! Eu disse nunca! Nem aqui nem na China vi chefes editorias publicarem poesias de um Zé-Ninguém que vem bater na sua porta pedindo para que você leia porcarias e fiquem elogiando! Eu só te atendi porque você não parava de me torrar a paciência com seus e-mails insistentes! Agora some daqui e leve essa caixa cheia de lixo!
Foi ofendido quando menos esperava e isso o deixou sem chances de defesa. A única coisa que conseguiu fazer foi obedecer ao editor, saindo porta afora sem olhar para trás.
João pensou muito no que aquele editor falou e não se lembrou de nenhum poeta que surgiu da noite para o dia e teve suas poesias publicadas e reconhecidas.
Sempre haviam suas exceções, mas, como regra geral, notou que todos os poetas que tinham seu espaço no cenário cultural tiveram algum papel de destaque na sociedade antes de alcançar a fama pelo mérito de suas obras. Infelizmente as pessoas só dão credibilidade àquele que é uma figura conhecida de todos e não ao que possui idéias inteligentes e úteis, pensou.
Tudo o que mais queria fazer na vida não teria valor algum se, antes de tudo, não fosse famoso. Isso foi um choque.
João ficou tão irritado pela impotência de ter trabalhos de qualidade e saber que nunca teria algum prestígio por meio deles, que jogou a caixa com todas as suas poesias na primeira lata de lixo que achou pela rua.
Foi beber; era assim que respondia às vitórias ou derrotas. Passou os três períodos do dia em um bar que freqüentava desde a época da faculdade. A Taverna, um bom bar.
Era noite e João já havia bebido demais quando encontrou um conhecido de muito tempo. Esse o convidou para uma festa em um apartamento próximo dali. João tentou recusar, mas o outro foi tão insistente que acabou cedendo.
Na festa, João encontrou antigos amigos da época da graduação e, em meio a bebidas e cigarros, relembraram os velhos tempos e as muitas aventuras que aprontaram.
A noite foi caindo e as pessoas saindo. Poucos estavam com alguma consciência quando começaram a conversar sobre literatura. O grupo falou de livros estrangeiros e nacionais, clássicos e contemporâneos até que, em dado momento, comentaram com certa graça o enredo de um livro do Jô Soares em que um louco matava moças e colocava cordas de violino em seus púbis. Inventaram muitas coisas que o assassino poderia colocar no lugar das cordas.
Quando a brincadeira virou algazarra de bêbados, o dono do apartamento colocou todo mundo para fora.
João foi para casa dormir. No caminho, totalmente esquecido da derrota que teve naquele dia, sorria ao se lembrar da festa. Graças ao álcool, conseguiu ter um pouco de diversão antes da semana que teria que enfrentar...
15 comentários:
Qual a situação financeira do João?
Pq se ele for pobre poderia fazer coisas tipo torrar tudo em roupas boas e começara se enfiar em eventos culturais(mesmo sem convite) para tentar conhecer gente do meio. Isso já rende uma boa quantidade de encrenca e desânimo.
Anderso Oliveira disse... (andersonolly@hotmail.com)
Qaundo ele jogou a caixa no lixo, pensei logo: Esse ato foi pensado, algúem poderia encontrar seus poemas no lixo e ficar deslumbrado com aqueles poemas, poderia ser um jornalista, ou um diretor, ou uma simples moça que se apaixonava pelos os poemas, e pelo autor, memsmo sem o conhecer, e tenho mais idéias, mas como o livro vai durar um ano vamos devagar.
Agora 'está' começando; à. 'Ficar' interessante.
show de bola! parabens Rafael!
Rafael,
O que mais estou gostando da estória é o fato de a personagem principal não ser muito diferente de qualquer um de nós (principalmente no que diz respeito às farras para poder agüentar a semana seguinte, huahuauhauha). Não poderia ter nome melhor e nem tomar atitudes diferentes das narradas.
Parabéns e continua nos narrando esta estória! E espero que tu não tenha suas idéias plagiadas por escritores medíocres como aconteceu ao pobre Paulo Coelho da Páscoa, que teve sua frase "O amor é fogo que arde sem se ver" plagiada por um poetinha medíocre chamado Camões.
Grande abraço
Ps.: Já publiquei também o capítulo II
Quem será que achará as poesias jogadas fora?! O mundo é mundo das possibilidades!!!!
Rafael,
Gostei bastante do enredo até aqui, sempre deixando interrogações para criar expectativa de uma próxima leitura.
Parabéns e vamos ao terceiro capítulo.
Roberto
João lançou-se no mundo das possibilidades ao jogar sua caixa no lixo. Vamos aguardar quais de seus pensamentos conscientes ou inconscientes, irão se materializar.Cabe a ele assumir essa responsabilidade.
Rafael, segue proposta de Errata por e-mail.
Abraços
adorei, mas acho que algm achar as poesias no lixo fica muito cliche...vou pensar no q poderia acontecer e t mando!
bjosssssss
Flor Bela Espanca e diz:
Ainda é cedo para saber se a estória vai ser boa ou não.
Até agora estou achando meio previsível.
Cuidado com a apologia ao alcool quando diz que o cara esqueceu toda a sua desgraça.
Talvez um roqueiro maluco, morador de rua, que tem como travesseiro a sua própria guitarra, encontre seus poemas ao buscar algo pra comer no lixo, e comece a musicá-los.
Obrigado, mais uma vez, aos comentários enviados por e-mail e pelo blog.
Estive pensado aqui. Acredito que seria interessante que as sugestões de enredo fossem enviadas por e-mail, pois assim as pessoas que lerem os próximos capítulos serão surpreendidas por não conhecerem um possível rumo da história.
O aparecimento de um indivíduo que afoga suas mágoas na bebida não é uma apologia ao álcool, mas sim um retratação de um quadro comum na sociedade.
Esse tipo de leitura que você fez é perigosa, pois pode gerar polêmica. Por exemplo, eu posso me valer desse mesmo tipo de raciocínio para dizer que você foi preconceituosa dando a entender que todo roqueiro é maluco, pobre etc.
TÔ COMEÇANDO A GOSTAR DO DRAMA! DE FATO MEU CARO E NOBRE AMIGO RAFAEL , VOCÊ ESTÁ CONSEGUINDO COLOCAR TODOS CO-AUTORES DENTRO DO LIQUIDIFICADOR! VEJA SÓ "AS FAISQUINHAS" QUE ESTÃO SAINDO DE UM COMENTARIO A OUTRO (ATE APOLOGIA AO ALCOOL JÁ ESTÁ SENDO DEBATIDO!) ESTÁ É A VERDADEIRA INTENÇÃO DA LEITURA QUE "ACORRENTA AS NOSSAS ALMAS ATÉ O FINAL DESTA HISTORIA"
ROBERTO FONSECA
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