João pulou da cama, tomou um bom banho quente cantarolando a melodia de A Cavalgada das Valkirias de Wagner e colocou a sua melhor roupa, fazendo todo o barulho possível sem se importar com seus vizinhos mal humorados que resmungavam no andar debaixo.
João nunca era assim. Sempre foi uma pessoa quieta e fechada. Um homem de muitos pensamentos e poucos sorrisos, mas que naquele dia em especial não conseguia conter sua ansiedade.
De cinco em cinco minutos ia para frente do espelho e ensaiava uma voz parecida com a de atores famosos quando encarnam uma personagem inteligente e importante que discursa sobre como irá salvar o mundo ou algo assim. Treinava também algumas palavras difíceis que poderiam ser úteis na conversação que teria em duas horas com o chefe editorial de uma editora conceituada no mercado que prometeu ler e analisar alguns de seus escritos com a promessa que talvez o colocasse no seu time de escritores.
O encontro com esse homem era a chance mais expressiva de publicação de um livro de poesias que João conseguiu nos seus curtos vinte e cinco anos de existência.
O gosto pela poesia não era algo recente na vida de João. Resolveu ser poeta ainda muito jovem, mais precisamente quando sua professora da segunda série do ensino fundamental pediu para os alunos escreverem versinhos para suas mães. O pequeno João tomou tanto gosto pelo ofício que desde aquele dia não parou mais de escrever.
Depois daquele dia na escola, todos os presentes de datas importantes que dava eram poesias. Não havia uma pessoa do seu círculo de amizade que não tivesse sido presenteada com versos seus.
Ao contrário dos que afirma que todo o abismo é navegável a barquinhos de papel, o hábito exótico do pequeno João era motivo de zombaria para muitos, fazendo com que o pobre garoto recebesse alcunhas do tipo: Poetinha, Poeteiro e Camõezinho. Essa última era a predileta de sua mãe que, sem maldade alguma, acabava sempre por envergonhá-lo na frente de outras pessoas ao chamá-lo assim em público.
Por conseqüência das tais brincadeiras, não precisou de muito tempo para que o menino se retraísse até o ponto de parar de presentear as pessoas com suas obras.
Diferentemente do que você deve estar pensando agora, esse modo da sociedade agir com o menino João não o fez perder o gosto pela poesia, mas sim mudou seus hábitos: agora guardava tudo o que escrevia a sete chaves, só para si.
Apensar de não mostrar seus poemas a ninguém, sempre sonhou em ser um poeta reconhecido algum dia. Não vou dizer que esse era o único sonho daquele garoto, pois como dizia o gênio caolho português, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Com João não foi diferente. O tempo passou para ele e um novo desejo apareceu, ganhando o status de sonho oficial. Sem mais mistérios, digo que o rapaz, em certa fase da sua vida, cultivou a vontade de ser professor de literatura.
Os anos se passaram e João perdeu os epítetos: pequeno, menino e garoto. Agora João era apenas João.
Sem parar de poetar, apaixonava-se cada vez mais pelas letras. Gostava muito de estudar português, literatura e culturas antigas. Cursou Letras na faculdade e desde o primeiro ano teve várias idéias para incentivar o gosto pela literatura de seus futuros alunos. Entretanto, como nada que seja perfeito e feliz possa virar história de livro, devo narrar algo muito triste que aconteceu com João:
Em pouco tempo de faculdade descobriu que nunca conseguiria por as tais idéias em prática, pois, como seus professores sempre faziam questão de ressaltar, não adiantava nada ter idéias para mudar o mundo se o mundo não quiser mudar de idéias.
O tempo correu mais um pouco para ele e, finalmente, concluiu o curso superior. Nunca chegou a lecionar. A academia conseguiu desmotivá-lo de tal maneira ao mostrar como era a vida de um professor, que logo abandonou esse sonho e voltou à idéia de ser poeta.
Seria um crime dizer que a faculdade foi algo totalmente sem valor para o rapaz, pois, muito pelo contrário, colocou-o em contato com o pensamento de vários escritores e filósofos e o fez aprofundar-se mais em sua língua materna, o que era muito necessário para seguir o seu antigo sonho.
Por falar em sonho, vamos a mais um dissabor da vida de João: as tentativas para viver das suas poesias foram muitas e, fatalmente, todas sem sucesso.
Para se ter uma idéia, participou de concursos, distribuiu suas poesias gratuitamente na rua, declamou alguns versos em frente aos carros que esperavam o semáforo abrir e muito mais. Entretanto tudo que conseguiu foi uma promessa de receber um prêmio pelo correio – que nunca veio – alguns elogios de jovens no meio da rua e algumas buzinadas de um motorista apressado.
Mas agora era diferente. Iria conversar com a pessoa que poderia colocar o primeiro degrau da sua escada do reconhecimento literário.
Faltando uma hora para a entrevista, saiu de casa, tomou um ônibus até o centro da cidade e de lá foi caminhando em direção à editora, que não ficava muito longe. Enquanto caminhava, falava sozinho, discursava, respondia possíveis perguntas que o editor poderia fazer, imaginava-se como se levantaria para apertar a mão do homem e qual assinatura usaria nos autógrafos que espalharia na rua.
Sua cabeça ia a mil. Aproveitava para olhar tudo ao redor, uma vez que depois de ser uma figura conhecida do público não poderia mais caminhar em paz.
João estava tão confiante na entrevista que teria em breve, que até parou em frente a uma ótica e começou a namorar uns óculos que julgou excelentes para os dias em que teria que sair de casa sem ser reconhecido, devido a enorme fama que possuiria após ter publicado seu livro.
Dos muitos passeios intergalácticos que João fez, a nuvem mais alta que ele tocou com seus pés foi quando olhou para um outdoor vermelho e branco no alto de um prédio e imaginou sua foto sorridente lá encima, apontando com o dedo indicador para baixo com os dizeres saindo de sua boca: “Eu sou poeta porque bebo Coca-Cola, e você? Vai ficar de fora dessa?”.
25 comentários:
Rafael, você o usa as palavras muito bem, de forma clara e coerente. Parabéns pelo início de seu trabalho, gostei muito. Vou acompanhar a história com certeza!
Realmente, me indentifiquei muito com sua forma suave e envolvente de escrever;
Inclusive promete ser uma ótima estória ^.^
Estarei acompanhando. Boa sorte!
Realmente esse será o livro do ano,começou muito bem e já naõ vejo a hora de ler o próximo capitulo.Você está de parabéns Rafael,é um escritor nato.
Alexssandro Rios de Carvalho
Muito carismático seu texto,
promete muito...
Até semana que vem e parabéns pela boa idéia :)
Jonatas
Cara, se o João se chamasse Viviane, ninguém perceberia a diferença! Essa é a minha história! A única diferença está no fato d'eu ter cursado Pedagogia, mas a questão da desilusão com a educação é a mesma. E o amor e a vocação pela poesia, ah, nem se fala...
Bom, acredito que o João está indo tão confiante para seu encontro porque, minutos antes de ter conseguido agendar essa entrevista, ele recebeu um e-mail de um amigo que continha alguns versos de Clarice Lispector, que diziam assim:
"Sonhe com aquilo que você quiser…
Seja o que você quer ser…
Porque você possui apenas uma vida
E nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte,
tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz".
Uma mensagem dessa muda o humor e nutre a confiança de qualquer poeta! Boa sorte João!
Rafael,
seu texto, como as outras coisas que você escreve, é muito bom. Vou ficar acompanhando essa história do João também, só não me sinto apta para comentá-la ou co-escrever agora; mas acho a idéia muito boa, e mais para frente vou participar disso.
Ana Claudia
Olá Caro escritor Rafael...
Gostei deste primeiro capítulo..
Concerteza vou acompanhar...
Poetas/escritores como nos sempre nos identificamos com obras de outrem!
VC escreve mui bem!
PARABÉNS pela INICIATIVA!
Muito Bom,Rfael
Não poderia ter começado melhor, estou aguardando o próximo capitulo.Até sábado. Um abraço.
Rafa, parabéns não só por escrever bem, mas também por seguir a mesma linha em todos os teus textos. Certamente é o que o leitor procura ao se identificar com um autor! Apesar de não ser poeta/escritor, concerteza gosto muito do teu estilo.
Viviane, muitas vezes a leitura se torna interessante por encontrarmos um contraponto às nossas realidades nas obras literárias. Acredito eu que esta é a diferença na literatura que agrega algo ao indivíduo. Nem sempre as relações são tão óbvias mas certamente encontrei muitas coisas relacionadas às minhas experiências até mesmo nos livros fantásticos de Italo Calvino. Boa sorte pra ti no teu desejo de ser uma escritora!
Giancarlo Fiorucci
Maravilha de texto. Fui "poetinha" na faculdade de medicina, mas de caolho não tenho nada; continuo poetando e escrevendo. Mas esta estória promete, Rafael e tem certo paralelo com nossa história real e a minha em particular. Vamos ver no que dá!
Viva Rafael. Acima de tudo os meus parabéns pela iniciativa tão repleta de originalidade. Levar a escrita a um teste de temporizações e moldagens sistemáticas afigura-se extremamente mais complexo que a história narrada em si. Se a tinta da caneta flui imparávelmente sobre o papel em determinados contextos espácio-temporais, noutros certamente seca por motivos vários. Se por vezes se propicia a escrita de resmas de páginas, outras existem em que se passam tempos duradouros sem uma letra fluir naturalmente. Um teste de capacidades soberbo ao qual te predispuseste, e o qual acompanharei atentamente, como referi, mais pelo teste em si que pela história. Essa engloba, a meu ver, muitas das sensações dos que pelas tuas letras deambulam, que tal como eu poderão certamente afirmar-se como amantes das letras. Um dia chega em fervor uma necessidade extrema, depois de nos presentearmos com vários escritos, de sentir as sensações contrárias. Ansiar que alguém se enrosque aprazivelmente com as nossas letras, das qual nos orgulhámos mas que não orgulham mais ninguém.
Cumprimentos e boa sorte!
Creio que a criação é algo individual, não sou favorável quanto ao "co-escritor", todavia o texto está agradável.
Estou ansiosa para ler o proximo capítulo.
Rafael estou imaginando os olhares interrogativos e de zombarias das pessoas para o João, que de tão absorvido e ansioso com o encontro com o editor, enquanto caminhava ia falando sozinho, ensanhando mil palavras, gestos.
achei simplório e fraco o início. escrever corretamente não é escrever bem. tenha em mente que cada linha deve adiantar a história e saiba muito claramente onde quer chegar. lembre-se de dizer algo além da história.
[]s
"Achei legal, mas parece que o personagem Está deixando muitas pistas ufânicas e narcisistas a seu respeito (mesmo que ocultas). Acredito que "João deveria ter mais os pés no chão". A realidade fictícia ou não as vezes é ingrata e fria. "Está faltando mais tempero no conteúdo". Sem exageros no preciosismo, acho que deveria também explorar palavras e chavões mais interessantes. RAFAEL, estou sendo sincero e estou gostando muito do seu trabalho.Mas nos próximos capítulos EU GOSTARIA DE: "SENTIR, PERFUMES, CALAFRIOS, CORAÇÃO DISPARADO, SUSPENCE E TUDO MAIS. "fazer alguém gostar realmente do que a gente escreve é como tirar leite de uma pedra". Um abração, e parabéns por ter dado este espaço também para nossas sugestões.
Roberto Fonseca - Goiânia/GO.
Giancarlo Fiorucci, muito obrigada pelas suas palavras!
Viviane.
O texto está bom, mas tem frases muito grandes e com poucas vírgulas. Por hora só vou ser o chato da vez mesmo...
HAUhUhUAhuHAUAHAUHUAHUAHAHAHUAH
Depois comento algo mais carismático, juro.
Oi ! Só uma idéia solta para uma outra personagem: a secretária ranzinza da editora. Pode criar umas situações engraçadíssimas, ia ser legal ! Ahahahha !
Abs !
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Estala o pescoço, alonga os braços pra cima, ajeita na cadeira, mais um dia de trabalho. Mais um longo dia de trabalho. Que escritório feio ! Já viu isso ? Papel de parede listrado, branco e creme, pra combinar com o piso, xadrez nas mesmas cores. Essa mesa estreita, essa cadeira torta, tudo aqui é horrível. Dizem que cultura não dá dinheiro, mas os donos dessa editora têm carros bem caros. Não duvido nada que aqui seja escritório de fachada, pois só publicam livros chatos de poemas que sempre ficam encalhados. E eu, como secretária, preciso sorrir pra esses nerds sonhadores. É fácil ser poeta sem precisar ganhar dinheiro.
Vamos ver quem é o idiota de hoje: João. Ah, esse eu conheço. Aposto que fica ouvindo músicas indie o tempo inteiro. A canção-tema deve ser “Creep”, do RadioHead. Nunca gostei de poesias, mas ele escreveu uma que quase me fez chorar. Fala sobre fingir um comportamento para não ser mais ridicularizado.
- O café tá pronto. – disse o chefe.
Fico impressionada com a frieza desse cretino. Ficou me assediando durante os primeiros 3 meses que entrei na editora e agora parece que nem me conhece.
Caro Rafael,
parabéns pela iniciativa. Discordo do nosso amigo que disse que devemos saber muito bem onde queremos chegar, a vida (a minha pelo menos) não funciona assim. Espero poder contribuir com a estória, que, por sinal, está parecida com a de 99,95% dos escritores iniciantes/amadores.
< Rafael que idéia fantástica!!
Parece até aqueles livros de antigamente que você esperava receber toda semana um capítulo. A ´história é rica, pois contém um pedaço da vida de cada um de nós que amamos a escrita e a leitura e temos que nos conter com pequenos guetos onde podemos nos expressar livremente.
O João(adoro esse nome,acho forte)deve ser um representante da força que tem nossas idéias, de como o que desejamos cria o mundo que está a nossa volta, basta para isso ficarmos atentos para magia da sicronicidade dos acontecimentos.Temos que fazer do João um "Fernão Capelo Gaivota", dos homens.
Abraços e até o próximo capítulo.
Iakissodara. >
Marco Fortezza, devemos sim saber o que queremos. Escrever ao léu é passo certo para o fracasso.
Rafael, não te conheço, é a primeira coisa sua que leio, mas achei sem graça. Meio sem sentido, sem beleza, sabe?
Mesmo assim desejo-te sorte.
Quero agradecer a todos que estão lendo e comentando a história.
É com imensa surpresa que vejo a quantidade de 21 comentários aqui.
A minha concepção para a construção da personagem não é um rótulo esteriotipado de "poeta", mas sim de pessoa que acredita cegamente em algo e cai do cavalo. Você pode subistituir o "poeta" por qualquer outro indivíduo que acredita nos seus sonhos e, depois de muita luta e batalha, quando acha que vai conseguir, recebe um soco na ponta do queixo que o deixa completamente sem ação. Pessimismo? Não. Realismo.
A história possui uma linha guia e tem um propósito a se cumprir. O fato desse "futuro" não ser relevado é o que faz o leitor a querer ler e, no caso deste livro, contribuir.
A todos que leram (e aprovaram ou desaprovaram) peço que leiam mais alguns capítulos para dizer se a obra é boa, ruim, vazia, cheia, destemperada, viva.
Acredito que nas próximas semanas muita gente vai "mudar de lado", rs.
Mais uma vez: obrigado por todas as críticas escritas aqui ou enviadas por e-mail.
Torço para continuarmos nesse ritmo!
Oi Rafael! Está ótimo! Me rachei no final uahsuhasuhas! vc escreve de uma forma que não dá vontade de parar de ler. Não vou dizer "vc tem futuro" pq vc já é dono de uma editora, meu, então...
Huhsauhashusa!
Brincadeira...Mas de verdade, está ótimo! Continue escrevendo que este blog já deu certo!
Bjos!
Ps: Sempre tem gente criticando não-se-sabe-o-quê.
Não concordo com as críticas que li aqui. Achei que a linguagem está excelente e o contexto em si está muioto bom.
Olá, Rafa!
Muito bom seu primeiro capítulo! Ótima iniciativa!!
Já vou ler o segundo! hehe
Até +!
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