sábado, 2 de junho de 2007

Capítulo 5: Lacunas

João encostou a cabeça na parede do banheiro e deixou a água do chuveiro deslizar pelas costas enquanto tentava se lembrar o que havia feito na noite anterior.

Sabia que algo estranho havia acontecido, mas não sabia o quê. Uma peça faltava no quebra-cabeça do dia de ontem. Lembrava-se de tudo perfeitamente até pouco tempo depois de sair do bar, mas não fazia idéia de quando e como chegou à sua casa.

Notou que a pele da ponta de seus dedos começava a enrugar. A divagação tomou-lhe muito tempo e ele provavelmente estava atrasado para ir ao trabalho. Fechando a torneira, interrompeu não só a água, mas também o pensar no dia de ontem. Barbeou-se cantando algumas músicas e foi para o quarto se trocar.

No momento em que deixou a toalha sobre a cama, viu jogada no chão a calça que usou na noite anterior. Percebeu que estava rasgada na altura do joelho. Quase que instantaneamente, veio-lhe uma espécie de flash: viu a si mesmo andando muito rápido e tropeçando em uma mulher que se encontrava caída no chão.

O choque foi grande. Tentou se lembrar o que havia acontecido depois da colisão. Não conseguiu. Como habitualmente fazia quando se sentia incapaz de realizar algo, rumou em direção à porta do armário para socá-la, mas parou no meio do processo; quando levantou o braço para preparar o golpe, sentiu uma dor intensa.

Caminhou até o espelho e não precisou mais do que alguns segundos para notar que havia marcas de mordidas e arranhões um pouco abaixo do ombro. Outro estalo veio a sua mente: visualizou perfeitamente o que havia feito um pouco após a queda.

Caiu sentado na cama e exclamou:

– Porra, matei alguém!

Levou as mãos à cabeça e permaneceu nesta posição por algum tempo. Levantou. Andou de um lado para o outro. Sentou novamente. Além de não saber o porquê de ter matado a moça, não tinha a menor noção do que faria a respeito do assunto.

Foi à cozinha, pegou uma garrafa de vodca que guardava para momentos especiais e a trouxe para o quarto, em companhia de um maço cigarro amassado que achou sobre a mesa da sala.

Com o passar dos minutos, do turbilhão que possibilidades que lhe ocorreu, decidiu se entregar à polícia e confessar o crime. Mas logo as dúvidas começaram a aparecer. Confessar como? Não podia dizer: “Seu polícia, matei uma mulher porque... porque... não sei porque!”.

Não sabia o que dizer por que não compreendia o que fez.

Alguns tragos e goles depois, João ouviu uma voz que vinha da parte mais escondida do seu eu:

– Seja homem, João! Se errou, assuma. Se entregue e diga que matou sem motivo. A lei é dura, mas é lei. Cometeu um crime e pagará por isso!

A voz interna lhe convenceu.

João colocou a primeira roupa que achou, fumou mais alguns cigarros, tomou outro tanto da vodca e olhou para o seu quarto no que ele acreditou ser a última vez.

Mas quando estava para sair de casa, ele se deparou com o jornal do dia na soleira da porta. Na primeira página, viu duas fotos em destaque. Um delas, da mulher que havia matado, e a outra – com o dobro de tamanho – de um papel que se encontrava sobre a mulher, no qual era possível visualizar o que estava escrito.

João se espantou ao descobrir que aqueles rabiscos sobre a moça eram, na verdade, uma belíssima poesia assinada sob o seguinte nome: Johann G. B. Noel.


Sentou-se no sofá e com um largo sorriso no rosto começou a contemplar a poesia. Deduziu que lhe ocorreu uma espécie de surto por conseqüência da idéia que desenvolvera enquanto caminhava e, mesmo sem visar à moça como vítima, usou-a para tal fim.


João começou a sonhar os mesmos sonhos do passado ao ver um poema que poderia ser seu publicado na primeira capa de um jornal.

Seu combustível imaginativo era praticamente infinito e só não viajou mais longe em sua nave delirante, porque foi teletransportado para outro lugar, mais precisamente, para a realidade: havia um crime para assumir. Largou o jornal no sofá, fechou a porta de casa e caminhou em direção ao ponto de ônibus.

Enquanto esperava pelo coletivo, teve a sensação de que estava sendo vigiado. João olhava para os lados, mas não via nada de que pudesse desconfiar. Devo estar louco – pensou – Primeiro mato alguém, agora estou com mania de perseguição. Bem que eu podia estar em mais um daqueles meus sonhos estranhos...

Louco ou não, ele ficou tão incomodado com a sensação, que resolveu ir a pé, tendo a esperança de que fosse fruto da sua cabeça e que pensar e andar poderiam resolver o problema.

Ledo engano. Ele realmente estava sendo vigiado.

3 comentários:

Marrie disse...

Olá Rafael..... obrigada pela sua visita. Não imaginei q vc iria...rs Gostei da sugestão e já fiz algumas modificações. Não sei se prestaram..... não sou muito boa nisso! rs
Ah, não sei se falei da outra vez, mas achei muito interessante esse lance do seu livro..... pra falar a verdade sou um pouco ansiosa em alguns momentos e daí prefiro lê-lo qdo tiver mais capítulo....... pra não provocar aflição! rsrs
abraços
Valeu
Marrie

Anônimo disse...

Opa Rafael, como vai?
E a história seguindo :)
O desfecho da semana passada foi muito bom mesmo. Então, eu já tinha blog, uma menina postou dizendo aquilo e eu achei o máximo. Cheguei a comentar o livro do ano no meu blog um tempo atrás.
Mas o fato de influenciar pessoas de forma positiva, escrevendo, despertando possíveis veias, isso por si só já vale o esforço. Parabéns outra vez.
Abraços !

Anônimo disse...

Cara, estou super ansioso para o próximo capitulo; João matou ou não a mulher? dúvida cruel rsrsrsrsr. Abraço.