Terminada a escrita, o homem deixou a folha sobre o corpo da mulher e se foi. Esperei que virasse a esquina para então correr até moça. Olhei-a por uns instantes. Em seguida, quase cheguei a pegar o papel para ler, mas me lembrei que se fizesse isso deixaria minhas digitais ali.
Ora, eu não sou como os outros moradores de rua que têm a vida que têm por conseqüência do sistema, mas sim por opção! Burro eu não sou, ou senão nunca teria posto meus pés num tablado de uma sala de aula da universidade.
Pensando bem, esqueça o que falei, pois o fato de ter lecionado na academia não me isenta de ser burro... Numa próxima reflexão, descubro o motivo de não poder ser considerado burro.
Pois bem, como ia dizendo, não queria deixar minhas digitais ali. Reclinei meu corpo sobre a vítima e li o papel sem tocá-lo.
Que maravilha era aquilo! O conteúdo do papel não era de minha autoria, mas me apaixonei por aquela criação do mesmo modo que Pigmalião tomou-se de amor por Galatéia. Aquele misterioso rapaz fez os mais belos versos que alguém poderia escrever para outra pessoa.
Depois de contemplá-los por um tempo, segui o rastro do homem até a frente deste prédio.
Aprendido o caminho, voltei para o beco e busquei o carrinho de mão que uso para transportar materiais recicláveis. Estacionei-o no jardim que fica em frente à morada do Poeta e procurei descansar um pouco.
Acordei bem cedo hoje com o entregador de jornais. Talvez pelo excesso de sono, o homem não se deu conta que havia derrubado um exemplar no chão. Corri para pegá-lo assim que não tive mais o entregador à vista.
Neste exato momento sei que deve estar zombando de um filósofo que lê jornal, mas saiba que sinto a necessidade de ter contato com as palavras. Preciso pôr meus olhos sobre elas, nem que seja em um papel impresso em série que atende às exigências de alguns figurões.
Apesar dos pesares, devo dar o devido crédito ao pessoal do jornal desta vez. Pois foram tão velozes que conseguiram cobrir a matéria do poeta que assassina para a edição da manhã. Está certo que veio com alguns erros ortográficos e de concordância, mas não há como exigir muito. Além de terem pouco tempo para abordar o assunto, jornal sem esse tipo de crime à língua, não é jornal.
Depois de ler um pouco do que estava escrito naquelas páginas, rasguei um pedaço do papel para bolar um cigarro com a palha que carrego sempre comigo. A palha não é das melhores, mas graças ao sabor peculiar da tinta do jornal, o fumo fica bem prazeroso.
Quando já dava os últimos tragos no meu cigarro, eis que se abre a porta do prédio e por ela sai o autor das poesias.
Mirei-o por algum tempo. Aquela expressão de gênio não estava mais presente em sua face. Para falar a verdade, ele tinha um semblante um tanto quanto imbecil. Não sei explicar, mas seu rosto tinha um quê de perdedor.
Não andava mais imponente como na noite anterior, quando havia acabado de fazer o serviço e rumava para casa. Muito pelo contrário: agora vacilava muito no seu caminhar e parecia que cada passo que dava era um arrependimento.
Ficou parado por um tempo no ponto de ônibus, mas depois mudou de idéia. Eu não sei para onde ele iria, mas não devia ser longe, pois arriscou ir andando.
Segui-o de longe. Olhava com freqüência para trás. Com medo de ser descoberto, eu revirava vez ou outra as latas de lixo, fingindo que estava trabalhando.
Conforme íamos andando, não raras vezes, o rapaz parava para escutar discretamente quando alguém comentava sobre o Poeta Assassino. Algumas vezes, parecia-me que gostava de ouvir as tais pessoas, mas em outras parecia repelir tudo que escutava. Não precisava ser um bom observador para notar que o homem estava realmente confuso.
A princípio, quando o vi sair do prédio, não poderia imaginar que ele poderia estar sofrendo um conflito interno, entretanto, ao somar a incerteza dos passos com a direção em que rumava, pude supor, sem dúvida alguma, que o rapaz tinha como destino a delegacia da cidade. Provavelmente se entregaria e assumiria o crime cometido.
Muito desanimado por tal atitude, dei-o como caso perdido. Sabia que o chefe de polícia prenderia o primeiro lunático que aparecesse assumindo a autoria do assassinato. Pensei em parar de segui-lo e continuar a viver como antes.
Mas não o fiz.
Não o fiz porque as coisas na minha vida estavam um tanto quanto monótonas. Sinto falta de conversar com pessoas com cérebro, mesmo que não o usem direito. Para falar a verdade, tenho saudades até da época que lecionava na faculdade.
Acho que aquele poeta não convencional estava precisando mesmo era de alguém para conversar um pouco sobre os sabores e dissabores da vida e não de ser preso.
Por fim, depois de tantas divagações durante o caminho até a delegacia, cheguei a duas conclusões. A primeira era que precisava ajudar aquele rapaz e a segunda era que o finado Fernando Sabino sabia o que falava quando sentenciou que no fim tudo dá certo, mas que se não deu é porque ainda não chegou ao fim.
Um comentário:
aooo bichão!
só falta os dois virarem amigos AHuAHhua muito boa estória!
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