Aleluia! Achei que esse rapaz não ia mostrar a cara nunca!, exclamei comigo mesmo quando vi o Poeta colocando os pés para fora de casa.
A experiência que eu havia presenciado ontem foi simplesmente fascinante. Estava eu tentando me proteger do frio em um terreno vazio perto do parque quando vi uma moça muito apressada passando por mim, sem ao menos me notar encolhido ali no chão.
Pela respiração veloz e descompassada, deduzi que deveria estar sendo seguida por um desses marginais que buscam um pouco de diversão nessas noites monótonas de nossa cidade.
Eu não queria confusão, pois se esses arruaceiros percebem que deixaram testemunhas de seus crimes voltam e tiram uma lasca de coro das nossas costas. Sendo assim, procurei me esconder atrás de uma pilha de lixo e esperar que o serviço acabasse para que pudesse voltar para meu canto e decididamente dormir o sono dos justos.
Não demorou muito para que o tal rapaz passasse acelerado. A princípio, achei que o tal marginal deveria ter algum problema mental, uma vez que, pelo jeito de andar e pelo semblante mecânico, juro que cogitei a possibilidade de que não tinha ninguém pilotando aquilo. Parecia que era um corpo móvel revestido de carne, mas de interior oco. Lembro também que ele falava desesperadamente consigo próprio. Parecia até que queria falar todas as palavras que conhecia ao mesmo tempo.
Sabia que poderia me arrepender de sair de trás do meu esconderijo, mas graças à minha curiosidade de filósofo não resisti. Botei a cabeça para fora do beco e o vi quase correndo atrás da moça. Ela estava desesperada e o rapaz obcecado.
Como nos livros de Ian Fleming, encarnei um agente secreto da MI6 e o segui sorrateiramente pulando de sombra em sombra, de árvore em árvore.
Confesso que além de achar peculiar a atitude daquele homem, fazia bastante tempo que eu também não contribuía para a propagação da espécie. É claro que eu não iria fazer nada com a moça, mas só de ficar ali olhando já me daria por satisfeito por alguns dias.
Pois bem, eis então que a moça caiu. Cacete! Assim também fica fácil! Deu uma corridinha e caiu, esse cara está é com sorte, pensei frustradamente, por causa da ausência de dificuldade na caçada.
Comecei a imaginar o que o homem faria com a moça. Será que a faria desmaiar? Ou será a estupraria com ela consciente? Com base no que ouvi da boca da maioria das figuras que encontro nessa minha nova condição de vida, julguei que aconteceria a segunda hipótese. Dizem os entendidos do assunto que é bem melhor com a mulher se debatendo e te xingando. Mais excitante.
– Porra! É um necrófilo – deixei escapar num sussurro pasmado quando ele, ao contrário de despi-la e fazer a minha felicidade, simplesmente a matou.
O sangue começou a gelar em minhas veias. A coisa já tinha perdido a graça para mim. Depois daquilo eu havia me arrependido de ter saído do meu cantinho.
Muito decepcionado pela noite e já pensando em voltar para onde nunca deveria ter saído, eis que fui surpreendido novamente. O rapaz abriu a bolsa que carregava nas costas, tirou uma folha de papel e uma caneta. Ficou agachado ao lado da moça olhando-a por completo e escrevendo alguma coisa. De tempo em tempo parava, contemplava-a e tornava a escrever.
Senti um arrepio na espinha. Aquele homem não se parecia com o mesmo que havia passado por mim há poucos minutos. Seu rosto transparecia um quê de gênio. É difícil explicar isso, mas ao vê-lo naquela posição a escrever daquele modo, senti que Da Vinci deveria ter se comportado da mesma maneira enquanto pintava a Monalisa.
3 comentários:
Esta ficando cada vez mais instigante. João é um homem que vive sem atenção com a vida e por isso ela lhe prende em armadilhas para que assim ele possa ter consciência de sua existência.
Esse filósofo é de uma loucura comodista assustadora, ainda estou tentando pensar num jeito de classificá-lo.
Bruno Fiorucci
opaa!! to curtindo hein HAuHA cara vive intensamente! continue assim, curti o rumo inesperado!
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